A AMIZADE E A LOUCURA NOS TEMPOS PÓS-MODERNOS
Dom QuixoteEngenheiros Do Hawai Muito prazer, meu nome é otário Vindo de outros tempos mas sempre no horário peixe fora d'água, borboletas no aquário Muito prazer, meu nome é otário na ponta dos cascos e fora do páreo puro sangue, puxando carroça Um prazer cada vez mais raro aerodinâmica num tanque de guerra, vaidades que a terra um dia há de comer.Ás de espadas fora do baralho grandes negócios, pequeno empresário. Muito prazer me chamam de otário por amor às causas perdidas. Tudo bem...até pode ser que os dragões sejam moinhos de vento Tudo bem...seja o que for seja por amor às causas perdidas Por amor às causas perdidas Tudo bem...até pode ser Que os dragões sejam moinhos de vento muito prazer...ao seu dispor Se for por amor às causas perdidas por amor às causas perdidas .............Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. O autor faz uma paródia crítica da literatura de cavalaria, e o personagem é um fidalgo de grande cultura, que de tanto ler as novelas de cavalaria teria perdido por completo o juízo e se tornara um cavaleiro andante e aventureiro, apaixonado por Dulcinea e acompanhado em suas andanças por seu escudeiro, amigo e companheiro Sancho Panza, enfrentando inúmeras aventuras.
No entanto a história de Dom Quixote é também, uma história de uma grande amizade, a do cavaleiro andante com o seu fiel, desastrado e também perspicaz escudeiro, Sancho Pança. Uma amizade baseada na lealdade e considerada como uma das mais bem representadas em toda a literatura.
Dom Quixote é um louco que acredita em seu sonho e vai à luta contra obstáculos imaginários em busca da celebridade e do amor. Também é considerado um ingênuo por tentar transformar a dura realidade em que vive em algo mais nobre, até hoje gerando adjetivos como, personagem quixotesco, dado a quem é impulsivo, sonhador, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade.
Como se vê, se por um lado o cavaleiro andante faz de sua vida a redenção das novelas de cavalaria, por outro Cervantes faz de sua obra um questionamento sobre a essência da própria literatura e pode ser considerado como a primeira obra literária moderna.
Ponderando sobre a amizade, constato na literatura que, a Philia, natureza física do amor, é o amor de amizade, o amor que quer saber de meu bem, a razão do amor de si, nascido de mutua simpatia e que cresce na fidelidade, que ao lado de Eros, natureza extática, fora de si mesmo, o amor de desejo, com algo de sem razão, falam da “normalidade”, ou seja, da neurose. A falta de um deles poder-se-ia pensar a “loucura”, assim sendo a psicose, pois assim se diz do louco um fora de si (JULIEN, 2002).
Nietzshe em algum momento, ao falar da loucura, nos traz, que sempre há alguma loucura no amor. Mas que também poderia haver, alguma razão na loucura.
O amor Philia estende-se para além do humano e ama até o inanimado e o abstrato. Assim, fala-se em amor à liberdade, amor ao ideal. Podemos citar Platão que afirma que o filósofo é aquele que ama (philia) a verdade.
Ainda sobre a loucura de Dom Quixote ou quem sabe a de todos nós, nosso poeta se questiona:
Que é loucura: ser cavaleiro andante ou segui-lo, como escudeiro? De nós dois, que é o louco verdadeiro? O que, acordado, sonha doidamente? Ou o que, mesmo vendado, vê o real e segue o sonho, de um doido pelas bruxas embruxado? Eis-me talvez o único maluco, e me sabendo tal, sem grão de siso, sou – que doideira - um louco de juízo. (DRUMOND).
Confirmando a modernidade desse personagem, podemos nos valer de Foucault, na sua célebre “História da Loucura”, para falar de Dom Quixote. Foucault nos demonstrou a relatividade das noções de quem pode ser e de quem pode não ser louco e a força do instrumento ideológico que o poder dessa conceituação da loucura exerce na sociedade.
Frei Betto em seu artigo A razão crítica de Cervantes através da loucura de Dom Quixote nos informa cita Michel Foucault, que nos fala de Quixote como o louco senhor da razão, mas não com a sua loucura, e sim com o seu protesto. Ele encarna a loucura, a insanidade e o poder que declara quem e o que é louco. E fica a questão, onde andarão os Cervantes capazes de derrotar com a sua pena aqueles que nos miram com as suas armas? Tanto faz que seja o sindicalista discursando ao vento às causas perdidas ou o “bêbado-equilibrista” que grita pelas ruas desafiando gigantes ou ainda profissionais e estudantes de psicologia apostando nas intervenções psicossociais, acreditando na força dos coletivos e nas micro-utopias.
Eu ainda poderia dizer que ser louco é quase tão necessário quanto ser herói, neste mundo pós-tudo, onde as relações de amizade e amor estão cada vez mais fragilizadas quase líquidas. (BAUMAN, 2005)
Ainda quando nos parece que estamos órfãos de utopias, Stein (1996), a apologia a amizade do herói de Cervantes nos impele a ter coragem de loucos lúcidos, não somente ver o mundo que os outros não vêem, mas acreditar e lutar por causas que parecem perdidas, pois se Dom Quixote é o outro que desejamos ser, e que por isso nós o queremos tanto, como diz Saramago, que não o deixemos em nós morrer.
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS
BETTO, F. A razão crítica de Cervantes através da loucura de Dom Quixote
http://voltairenet.org/article125266.html
http://voltairenet.org/article125266.html
JULIEN, P. Psicose, perversão e neurose. A leitura de Jaques Lacan, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2002.
STEIN, E. Órfãos de Utopia – a melancolia da esquerda Editora da Universidade, RS. 1993.
