Entre Laços - Espaço terapêutico

segunda-feira, 4 de abril de 2011


A AMIZADE E A LOUCURA NOS TEMPOS PÓS-MODERNOS



 
Dom Quixote
Engenheiros Do Hawai
 
Muito prazer, meu nome é otário 
Vindo de outros tempos mas sempre no horário 
peixe fora d'água, borboletas no aquário 
 Muito prazer, meu nome é otário 
na ponta dos cascos e fora do páreo
  puro sangue, puxando carroça
 
Um prazer cada vez mais raro 
aerodinâmica num tanque de guerra, 
vaidades que a terra um dia há de comer.
Ás de espadas fora do baralho 
grandes negócios, pequeno empresário.
 
Muito prazer me chamam de otário 
por amor às causas perdidas. 
 
Tudo bem...até pode ser 
que os dragões sejam moinhos de vento 
 
Tudo bem...seja o que for 
seja por amor às causas perdidas 
Por amor às causas perdidas 
 
Tudo bem...até pode ser 
Que os dragões sejam moinhos de vento 
muito prazer...ao seu dispor
 
Se for por amor às causas perdidas 
por amor às causas perdidas .............

Dom Quixote, de Miguel de Cervantes. O autor faz uma paródia crítica da literatura de cavalaria, e o personagem é um fidalgo de grande cultura, que de tanto ler as novelas de cavalaria teria perdido por completo o juízo e se tornara um cavaleiro andante e aventureiro, apaixonado por Dulcinea e acompanhado em suas andanças por seu escudeiro, amigo e companheiro Sancho Panza, enfrentando inúmeras aventuras.
No entanto a história de Dom Quixote é também, uma história de uma grande amizade, a do cavaleiro andante com o seu fiel, desastrado e também perspicaz escudeiro, Sancho Pança. Uma amizade baseada na lealdade e considerada como uma das mais bem representadas em toda a literatura.
Dom Quixote é um louco que acredita em seu sonho e vai à luta contra obstáculos imaginários em busca da celebridade e do amor. Também é considerado um ingênuo por tentar transformar a dura realidade em que vive em algo mais nobre, até hoje gerando adjetivos como, personagem quixotesco, dado a quem é impulsivo, sonhador, romântico, nobre, mas um pouco desligado da realidade.
Como se vê, se por um lado o cavaleiro andante faz de sua vida a redenção das novelas de cavalaria, por outro Cervantes faz de sua obra um questionamento sobre a essência da própria literatura e pode ser considerado como a primeira obra literária moderna.
Ponderando sobre a amizade, constato na literatura que, a Philia, natureza física do amor, é o amor de amizade, o amor que quer saber de meu bem, a razão do amor de si, nascido de mutua simpatia e que cresce na fidelidade, que ao lado de Eros, natureza extática, fora de si mesmo, o amor de desejo, com algo de sem razão, falam da “normalidade”, ou seja, da neurose. A falta de um deles poder-se-ia pensar a “loucura”, assim sendo a psicose, pois assim se diz do louco um fora de si (JULIEN, 2002).
Nietzshe em algum momento, ao falar da loucura, nos traz, que sempre há alguma loucura no amor. Mas que também poderia haver, alguma razão na loucura.
 O amor Philia estende-se para além do humano e ama até o inanimado e o abstrato. Assim, fala-se em amor à liberdade, amor ao ideal. Podemos citar Platão que afirma que o filósofo é aquele que ama (philia) a verdade.
Ainda sobre a loucura de Dom Quixote ou quem sabe a de todos nós, nosso poeta se questiona:
                  Que é loucura: ser cavaleiro andante ou segui-lo, como escudeiro? De nós dois, que é o louco verdadeiro? O que, acordado, sonha doidamente? Ou o que, mesmo vendado, vê o real e segue o sonho, de um doido pelas bruxas embruxado? Eis-me talvez o único maluco, e me sabendo tal, sem grão de siso, sou – que doideira - um louco de juízo. (DRUMOND).

Confirmando a modernidade desse personagem, podemos nos valer de Foucault, na sua célebre “História da Loucura”, para falar de Dom Quixote. Foucault nos demonstrou a relatividade das noções de quem pode ser e de quem pode não ser louco e a força do instrumento ideológico que o poder dessa conceituação da loucura exerce na sociedade.
Frei Betto em seu artigo A razão crítica de Cervantes através da loucura de Dom Quixote nos informa cita Michel Foucault, que nos fala de Quixote como o louco senhor da razão, mas não com a sua loucura, e sim com o seu protesto. Ele encarna a loucura, a insanidade e o poder que declara quem e o que é louco. E fica a questão, onde andarão os Cervantes capazes de derrotar com a sua pena aqueles que nos miram com as suas armas? Tanto faz que seja o sindicalista discursando ao vento às causas perdidas ou o “bêbado-equilibrista” que grita pelas ruas desafiando gigantes ou ainda profissionais e estudantes de psicologia apostando nas intervenções psicossociais, acreditando na força dos coletivos e nas micro-utopias.
 Eu ainda poderia dizer que ser louco é quase tão necessário quanto ser herói, neste mundo pós-tudo, onde as relações de amizade e amor estão cada vez mais fragilizadas quase líquidas. (BAUMAN, 2005)
Ainda quando nos parece que estamos órfãos de utopias, Stein (1996), a apologia a amizade do herói de Cervantes nos impele a ter coragem de loucos lúcidos, não somente ver o mundo que os outros não vêem, mas acreditar e lutar por causas que parecem perdidas, pois se Dom Quixote é o outro que desejamos ser, e que por isso nós o queremos tanto, como diz  Saramago, que não o deixemos em nós morrer.









 



 
REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS

BAUMAN, Z. Amor Líquido. Sobre A Fragilidade Dos Laços Humanos JORGE ZAHAR, 2005.

 BETTO, F. A razão crítica de Cervantes através da loucura de Dom Quixote
http://voltairenet.org/article125266.html

JULIEN, P. Psicose, perversão e neurose. A leitura de Jaques Lacan, Rio de Janeiro, Companhia de Freud, 2002.

STEIN, E. Órfãos de Utopia – a melancolia da esquerda Editora da Universidade, RS. 1993.

segunda-feira, 17 de janeiro de 2011

NOSSO COMPROMISSO SOCIAL COM A EDUCAÇÃO O valor do comprometimento dos pais na educação para vida


"Véspera do vestibular da minha caçula: como é difícil com os filhos crescidos tão pouco poder fazer por eles”.
Compartilho esse sentimento com a psicanalista Diana Corso. Chega um momento da vida dos filhos que precisam voar. Tomar decisões. Acordar sozinhos, ou ao menos saberem usar um despertador. Escolher a faculdade e o curso que querem tentar iniciar. Sentirem medo de passar ou de não passar no vestibular. Pensarem sobre as conseqüências das escolhas. Todas situações, muito angustiantes. E nós, com o coração apertado, vamos ficando cada dia mais, saudavelmente coadjuvantes deste processo todo.
Mas enquanto isso? Enquanto seguem pelo 1º e 2º graus? Como nós pais estamos nos posicionando a respeito? Que parcela de compromisso assumimos com essas etapas?


            Como pais sabemos que o ambiente familiar é o primeiro e mais significativo para a interiorização de valores, criação de hábitos e aprendizagens variadas.
Achei interessante introduzir esse assunto com uma historinha. Um casal procurou um rabino para se aconselhar sobre a educação de seu filho de 12 anos, aos quais ele respondeu.
“Vocês me procuraram com 12 anos de atraso. Um ser humano é como uma árvore. Se você fizer um arranhão no galho de uma árvore crescida, afetará somente aquele galho. Porém, se fizer um risco numa semente, a árvore jamais crescerá reta, se é que chegará a crescer.”

Bauman denomina de
TEMPOS LÍQUIDOS o nosso atual momento. Uma maneira de nos diferenciar dos tempos sólidos, das certezas absolutas, do pensamento único, da previsibilidade de nosso futuro, do endeusamento das ciências. Tempos líquidos são, tempos de relações descartáveis e superficiais, do rápido, da visão individualizada e fragmentada da realidade, da violência e insegurança, da perda de confiança nas instituições, da globalização, da diversidade, da perda de nossas certezas ...
           

Todo o caos que vem se instalando na sociedade através da violência em suas múltiplas formas: desrespeito, preconceitos, agressões é consequência da falta de disciplina que advém da ausência de limites, de valores, de um significado que dê um sentido a vida, sentido que transcenda o imediatismo e as necessidades materiais cultivadas pelo consumismo desenfreado.


Cada vez mais aumenta o desinteresse dos alunos e a escola não consegue competir com o fascínio do mundo virtual e das novas tecnologias.
 Todos os dias ouvimos que precisamos com urgência reinventar a educação, a escola, para que ela seja fascinante, em sintonia com a geração e o mundo atual.
Por outro lado vemos e sentimos o enfraquecimento dos valores morais, o descompromisso de muitos pais com a educação dos filhos, entregando totalmente essa tarefa para a escola. Porém, EDUCAR é tarefa da família e da escola. Estes dois pilares precisam estar em sintonia,  "esta bola, família e escola devem jogar juntas". (TAVEIRA, 2010)
           

            Lima (2006), psicólogo e doutor em educação traz importantes reflexões sobre a educação chamada de pós-moderna, referindo que a sociedade com um todo tem responsabilidades. Pais por criarem uma geração sem compromisso com os valores do lar, da família, da tradição cultural local e do país. Educadores pelos efeitos da educação geradora de  pessoas individualistas, consumistas, sem gosto pela leitura, sem atitude crítica, desinteressada para transformar o mundo.

Lembra da “geração AI-5” termo da época da ditadura militar, que aparece como fruto alienado e alienante, efeito da repressão daquela “cultura autoritária”. No entanto, a atual geração ‘sem compromisso’ é mais complexa. Inclui desde os sem compromisso com a democracia aos que não tem compromisso com nada.


O declínio da lei-do-Pai, a permissividade da mãe, ou a negligência de ambos, somado ao contexto sócio-político frustrante, a cultura descartável, o futuro incerto, faz com que a nova geração se imagine sem rumo, vivendo apenas o presente e sentindo autorizada a fazer tudo sem dar satisfação a ninguém.
 Um garoto ou garota com estilo ‘sem compromisso’ costuma ter um pai com medo de exercer a autoridade de ‘pai’ e uma mãe propensa a dizer sempre ‘sim’ para suas vontades e caprichos. Os professores de hoje também temem essa geração de alunos que ignoram toda e qualquer autoridade.
O problema, porém, não é só econômico e de tempo. É também psicossocial. Ocorre nessa geração “o descompromisso para com o outro”. O outro não é visto com respeito e consideração. Pode até ser tolerado, mas não respeitado. O ‘outro’ podem ser os pais que fazem um enorme sacrifício, por exemplo, pagar o colégio ou comprar-lhes um objeto do desejo dos filhos.  O ‘outro’ pode ser a professora que cada vez mais é ignorada e desrespeitada na sua função em sala de aula.

O apoio dos pais é fundamental para ajudar as crianças a se adaptarem à rotina escolar e a conseguir melhores resultados em seu desempenho pedagógico. Educar é uma atuação mais abrangente do que ensinar e transmitir conhecimentos.
É comum que pais que trabalham fora de casa acabem se afastando dos fazeres escolares dos filhos, com a justificativa de estarem muito atarefados. Mas é preciso entender que, mesmo com papéis diferentes, a escola e a família têm o objetivo comum de educar a criança para a vida em sociedade.
Para os estudantes obterem bons resultados na escola, algumas palavras-chave são fundamentais, como: estrutura, disciplina, desafios, reconhecimento, motivação, limites, escolhas, segunda chance, compreensão, respeito e muito amor.
Finalizando compartilho uma mensagem de Celso Antunes.

“Que os pais nunca se recolham na omissão da dúvida, que ajudem suas crianças a ampliar os espaços de suas referências e estimulem com serenidade, mas ardor, suas muitas linguagens, suas inúmeras inteligências, transformando alguns momentos das crianças com quem convivem em instantes de afeto, companheirismo, entusiasmo e paixão.
Que não se atemorizem com inevitáveis erros, mas privilegiem a intenção sincera do acerto. E que não aguardem a maturidade de se tornarem avós para a ousadia da entrega e a sublime missão de construir o futuro.”

LUCIENE TOMAZI DA SILVA
PSICÓLOGA
ENTRE-LAÇOS
Espaço Terapêutico
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Contato: Fone (51) 81949669
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