Que o espírito natalino esteja com você agora e em cada dia do Ano Novo. Desejo que você celebre este dia com todas as honras que ele merece e que você sinta toda a alegria do Natal em seu coração.
Feliz Natal!
O sujeito como uma floresta...com regiões ensolaradas e secas, mas também úmidas e escuras.
...tirar tudo a limpo, desprezar a máscara, assumir o desejo, refutar sentidos oferecidos por terceiros que acabam deixando o dia menos nublado em nome de uma certa satisfação momentânea.
Sair do limbo exige a ruptura de uma inércia, remar contra a correnteza e atravessar um deserto que sopra areia nos olhos. Pura violência, puro desconforto, pura reinvençã
A experiência, e a literatura pode “constituir uma experiência que, ilusória ou não, aparece como um meio de descoberta e de um esforço, não para expressar o que sabemos, mas para sentir o que não sabemos.
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Entre pessoas e MÁQUINAS
Na era da modernidade líquida, como nos fala muito bem Bauman (2005), a preferência é dada aos relacionamentos em redes. Estas podem ser tecidas e desmanchadas com semelhante facilidade, e sem que com isso haja algum envolvimento, além do virtual.
E nesta modernidade, conseguiremos criar laços? Pois entre pessoas estão as máquinas. E como manter estes laços na virtualidade?
Outro dia li um artigo intitulado, Entre pessoas e MÁQUINAS, de um educador da USP e observei com interesse a forma de escrita, em letras maiúsculas, da palavra “máquinas”. O intuito, provavelmente, era chamar a atenção para o valor destas, diria até, para a personificação das mesmas. Ora, já vemos por aí crianças e adultos tratando seus laptops e telefones celulares, como se os mesmos, tivessem vida. Abdicando estes de estar em contato real com os seus semelhantes, nas praças, lanchonetes e sorveterias.
Demasiada preocupação? Pode ser. Mas na verdade poderá existir vida sim, nessas máquinas! Existe a história das vidas de crianças e adolescentes sendo tecidas nas redes virtuais. Angústias adolescentes sendo trocadas, divididas e expostas em sites de relacionamento e conversas on-line.
Sem dúvida alguma, as barreiras da timidez, as dificuldades de olhar esse outro, de frente, são diminuídas, se não, inexistentes, através das máquinas.
Algumas vezes, longe do olhar dos pais, podem ser vítimas ou algozes, num tipo de violência, que hoje chamamos de cyberbullyng. Organizando brigas entre bondes, num solitário mundo que pais desconhecem, pois o tempo passa rápido e é necessário trabalhar cada vez mais horas, pouco tempo restando para fortalecer os laços familiares.
No entanto, já observei, no cotidiano de crianças e adolescentes, que esta rede de máquinas, também facilitam o interagir, quebrando o gelo inicial de encontros. Aglutinando os grupos, em torno de interesses afins, como músicas, vídeos e leituras, estimulando com isso o conhecimento.
Então, será sim, na família e na escola e em espaços de educação informal, que podemos incentivar o contato para além do virtual, e assim, tornar mais fortes, os laços sociais.
Posteriormente a um gentil elogio sobre a coluna passada emitido por “Tia Aninha”, nome fictício de uma querida amiga e de sua sugestão para uma próxima coluna “Escreve sobre o personagem da Maitê”, me detive um pouco nas cenas de Estela, personagem de Maitê Proença, numa novela da rede Globo.
Se sou noveleira? Não...estou noveleira! Algo para me distrair da tristeza narrada nos noticiários sobre nosso nordeste e dos “seres humanos” que Saramago já descreveu em Ensaio sobre a Cegueira, vendendo água e gás cinco vezes mais caros, naquela região! Certo, isto já é outra história! Acontece que literatura da boa, cinema ou teledramaturgia, sempre me disparam a pensar sobre as angústias e misérias humanas.
Então, refletindo sobre esse personagem, o da Maitê, lembrei:
“(...) da moça bonita da praia de Boa Viagem, da moça no meio da tarde de um domingo azul. Azul, era Belle de Jour, era a bela da tarde. Seus olhos azuis como a tarde. Na tarde de um domingo azul, La Belle de Jour!
La Belle de Jour era a moça mais linda de toda a cidade. E foi justamente pra ela, que eu escrevi o meu primeiro blues...Mas Belle de Jour no azul viajava, seus olhos azuis como a tarde...
Na tarde de um domingo azul... La Belle de Jour!...(Alceu Valença)
Nossa belle Maitê, em entrevista a Folha de São Paulo, menciona que já havia feito outros personagens infiéis, vulgares, que ofereciam favores sexuais em troco de dinheiro, mas nunca uma “traidora convicta” , como a Stela e conta que esta trai o marido “para respirar, sentir que não é o lixo que ele a faz sentir”, sendo truculento, agressivo, desagradável e grosso. Justifica ainda que escolhe os garotões, pois “os jovens não se incomodam com rugas e um corpo imperfeito, têm disponibilidade para uma aventura sem nome, correm riscos sem ter que fazer grandes conjecturas e admiram a experiência”. Ela toma a iniciativa, ela decide com quem, ainda que quase compulsivamente. Talvez só até encontrar em viajantes tardes azuis alguém que traga mais ar e a faça se apaixonar.
Em minhas leituras me deparo com um filme dos anos sessenta que tal qual a música de Alceu Valença se chama La Belle de Jour. Este filme foi um marco do cinema francês, dirigido por Luis Bunuel, que tem como trama o comportamento transgressor da protagonista e prostituta Séverine, estrelada pela atriz francesa Catherine Deneuve. Este nos remete a relações de poderes e saberes sobre os corpos historicamente construídos e imputados aos seres humanos, principalmente, às mulheres. E tem nos enunciados de normal e anormal, instrumentos de produção de identidades e subjetividades.
Assim, desde o início, o filme discute a constituição da identidade a partir das posições sociais e das relações, verticais e horizontais, entre os personagens e seu meio.
Severine se indaga: “O que há comigo hoje?” Esta frase é um exercício de presença. Se até então Severine estava posicionada, na história de sua vida, sendo conduzida, neste momento tenta tomar as rédeas de sua carruagem.
Para Maitê, Stela tem uma secura parecida com o personagem do filme francês. Uma aridez de quem carrega tristezas. E as suas traições não a satisfazem. Na hora um grande prazer e na volta pra casa, a melancolia toma conta.
Ao ser interrogada sobre o merecimento de traição de Saulo a atriz brasileira refere que, “merecer é vício da igreja católica apostólica, que fala de merecimentos, culpas e penas”. No entanto Stela é a única pessoa que Saulo escuta e tem na vida. Sucumbiria sem ela, ainda que nem a olhe? Bom, ainda teremos tempo para mais hipóteses! Mas se lembrarmos que os personagens de José Mayer, tinham o mesmo tipo de comportamento....
O que há no interior destas reflexões é a invenção, através da História, das normas do que é a verdade e o falso sobre nós. Não é nos indagarmos se Severine, a burguesa que se prostitui, vivida por Catherine Deneuve, ou a Stela, protagonizada por Maitê Proença, são ninfomaníacas, anormais, compulsivas, desregradas, desviantes ou qualquer outra denominação preconceituosa que emita, um valor sobre a conduta dela.
É refletirmos em que condições histórico-sociais é possível reconhecê-la como determinado sujeito de uma certa sexualidade, no caso desviante não enquanto pré-concepção de um comportamento pessoal, mas desviante, sim, da norma burguesa e, portanto, de uma certa concepção histórica de nós mesmos?
E, ainda, questionarmos como nos reconhecemos a nós mesmos como sujeitos de uma determinada verdade, seja ela sexual, comportamental, ética, estética, artística, profissional, relacional, etc.? E qual a formação dos procedimentos histórico-culturais pelos quais somos levados a nos observarmos, a nos analisarmos, a nos deciframos como ajustados, disciplinados, perversos, normais, anormais, pecaminosos, salvos, abençoados, excluídos, marginalizados, adequados, etc?
Isto porque, ao pensarmos, sentirmos, desejarmos, já estamos enredados a contextos culturais e, ao mesmo tempo, resistindo às suas influências, sejam eles a família, os amigos, a cidade, o país, dentre outros.
Assim, tal qual Severine ou Stela, vivemos o devir da renovação de nossos horizontes pessoais, repletos de história, no qual nos lançamos, corporal e psiquicamente, através da oscilação, criativa e angustiante, de experimentarmos - às vezes, mais rasteiramente, às vezes, mais elevadamente - a carruagem ou o carro da moda da nossa própria caminhada.
Referências Bibliográficas
Dossiê Foucault – Revista Aulas e Folha de São Paulo on line.
Que lindo esse poema! Sugestão da querida Sabrina! Parte dos meus laços!

“...estou no norte do estado, um lugar lindo, cheio de subidas e descidas, para ter uma ideia o lugar mais baixo da cidade fica
Esse scrap, recado, na minha página do orkut, deixado por um amigo querido, que conseguiu um trabalho de psicólogo neste local, disparou em mim, algumas associações, relacionadas ao tema, “Saúde Mental”.
Lembrei-me de Patch Adams, O Amor é Contagioso (alguém já viu o filme)? Ele, ainda hoje, contagia genuinamente. Mesmo que busquemos a verdadeira história deste médico, e a mesma, não seja tão romanceadamente engraçada como no filme. Ela afeta! Faz-nos pensar no quanto este sistema massacra os doutores da saúde e junto com eles, os que aguardam, nos corredores e salas de espera, por algo mais que um anti-inflamatório, um CID (Código Internacional de Doenças), ou o antidepressivo do momento.
Pensei na proposta do Ministério da Saúde, HUMANIZA SUS. Que é ótima, pois prevê a INTEGRALIDADE da saúde do ser humano. Mas, essa é uma história loooonga!
Lembrei também de um livro que cheia de arrogância de recém formada, olhei com desdém, “Xiiii, é auto-ajuda” O Futuro da Humanidade de Augusto Cury e costurei tudo isso aos retalhos de minha trajetória de acadêmica e recém formada.
Neste juntar de retalhos em minha mente, foram surgindo os locais em que realizei meus trabalhos, buscando novas possibilidades de atenção aos que sofriam com diversas questões.
A escuta de um limpar de feridas do coração e da alma. O acreditar e acolher demandas individuais que aos poucos se mostravam coletivas e vice-versa. Histórias que desacomodavam, que faziam com que o conforto da poltrona do domingo fosse substituído por uma inquietação gigantesca. Foram momentos de “atravessar desertos com areia nos olhos”.
No entanto, alguns profissionais da saúde me fizeram acreditar que o amor e a paixão pelo outro, ainda prevalece nas suas ações. Ensinaram-me a relevância da atuação interdisciplinar. Que a saúde não pode ser entendida e praticada com um conjunto de ações e saberes isolados. E que, portanto, era necessário produzir ações comuns, sem o predomínio de uma profissão ou campo como detentora das diretrizes do trabalho generalista.
Penso que entendi que somente a partir desta ética dos “afetos”, será possível pensar-se a saúde mental. Somente participando com implicação e envolvimento, para que os grupos se desenvolvam e se tornem conscientes e aptos a exercer atividades cooperativas e organizadas, buscando a emancipação humana.
Muitos foram os que passaram e irão passar por minha história profissional. Muitos permitiram minha aprendizagem. Alguns, no entanto, contribuíram para que eu entendesse que também se faz psicologia em micropolíticas, nas intervenções cotidianas. Estes ampliaram o exercício de minha in-conformação com as práticas que despotencializam e silenciam a vida.
Esses sim, proporcionaram os bons encontros. E para estes uma homenagem de um texto, que como diz o poema de Milton Nascimento: “Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece como não fui eu que fui eu que fiz”?
“Estar por perto quando as crises acontecem, sentir junto a angústia de vozes que insistem em dizer algo, perceber o corpo que poucos percebem, negociar em cima do telhado, temer os medos comuns de quem, por sorte, sempre se faz diferente.
Combinar combinados sempre a recombinar. Compartilhar a criação de um mundo em que caibam pessoas, pessoas como nós...Experimentar adoecer e, de cuidador, passar a ser cuidado.
Reconhecer o não ter respostas e tentar construí-la junto ao outro – tão igual...
Conhecer novos valores, se permitir chorar, assumir o risco de confiar nos vínculos.
Se assustar com o tamanho da dor e mesmo assim, por força maior, querer estar por perto.
Conhecer de perto demais a impotência frente a morte e a força poderosa da sobrevivência.
Fazer amigos e parceiros, se permitir questionar a si próprio, aprender que pouco se sabe – e o quanto há pra se aprender, criar expectativas – ora pequenas, ora grandes demais!
E ter de mudá-las, reconstruí-las, resgatá-las e conviver num mesmo espaço (que sempre será pequeno para tanto) com famílias, usuários, equipe, outras equipes: pacientes e impacientes...” (SURJUS, 2007, p.
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