Entre Laços - Espaço terapêutico

terça-feira, 21 de dezembro de 2010

CLIMA DE NATAL?



“Quando Deus resolveu abalar o mundo enviou-nos um bebê e não uma bomba!” Li essa frase outro dia e fiquei pensando. Independente de nossa crença, religião ou carência destas. O que o Natal nos faz sentir?
O que é esse “Clima de Natal” que muitos perseguem, planejam, ou então, queixam-se da falta? De alguns escuto que é um período triste, de outros que é tão bom sentir este clima de paz e harmonia que invade o coração dos seres humanos quando chega o Natal.
Os comerciais televisivos nos fazem umedecer os olhos, nos emocionando com suas histórias natalinas contadas ao oferecer o produto a ser consumido.
Queremos ser racionais e críticos com o exagerado apelo as compras, no entanto, vai chegando perto da data e sofremos se não conseguimos presentear quem amamos, ou ainda, se não alcançamos a realização de nossas “necessidades”, que a essa altura já não sabemos se são nossas ou foram inventadas.
Ainda assim, brigando contra o apelo ao consumo. Sofrendo por não dar conta de tornar felizes os seres do mundo. Com perus e frangos. Ou apenas jantar. Com casa nova ou somente uma casa. Com roupas da moda ou ao menos roupas. Quem dera, se pudéssemos viver assim a vida toda. Quem dera, se pudéssemos não escolher nem datas nem momentos para sermos bons e generosos.
O Natal deve ser uma bela data por toda a vida e em todos os momentos.
Que o espírito natalino esteja com você agora e em cada dia do Ano Novo. Desejo que você celebre este dia com todas as honras que ele merece e que você sinta toda a alegria do Natal em seu coração.
Feliz Natal!

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O MEU, O SEU, O NOSSO QUERIDO DIÁRIO! Ou uma maneira de sair do limbo?

           Inúmeras vezes durante um percurso, de vida, acadêmico ou profissional. De cartas ao primeiro amor à teses,  recorremos as palavras dos que foram importantes em nossa trajetória. De grandes nomes da literatura aos mestres que possuem o dom de deixar escrito o que necessitamos ler.
Alguém escreveu antes que eu pudesse pensar que: “Só conseguimos deitar no papel, os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. (...) só podemos expor o que somos. Ai que mora o perigo: EXPOR O QUE SOMOS?
 Lispector utiliza o termo Dura Escritura em Água Viva ao expressar o fatigante exercício de escrever “...antes de mais nada te escrevo dura escritura, quero como poder pegar com a mão a palavra”. Outro poeta, inglês, disse: “Que notícias sensacionais podemos obter dos poemas? No entanto, pessoas perecem a cada dia, por falta do que ali se encontra”.
Na busca de criar novos mundos ou novas formas de sentir, utilizamos criativamente a letra para dar conta do silêncio das coisas. Conseguindo significar com palavras o que não é palavra. Como escreve Cargnin no livro A Instabilidade do dragão (relatos de uma bipolar). “Agradeço por um simples caderno e uma caneta terem a capacidade de me acalmar e desabafar ao mundo, sem medo do julgamento o qual, muitas vezes, dá início à incredibilidade”.
A experiência da escrita e da literatura poderá constituir uma experiência que, ilusória ou não, aparece como um meio de descoberta e de um esforço, não para expressar somente o que sabemos, mas para sentir o que não sabemos.
Sobre esse não saber, ou mesmo, sobre esse expor-se na escrita Martendal me auxiliou ao me fazer ver, que tentar sair do limbo seria trocar a prótese por uma autenticidade até então desconhecida, que exporia as facetas não tão apreciadas pela perseverante sociedade. O sujeito como uma floresta...com regiões ensolaradas e secas, mas também úmidas e escuras.
Seria como...tirar tudo a limpo, desprezar a máscara, assumir o desejo, refutar sentidos oferecidos por terceiros que acabam deixando o dia menos nublado em nome de uma certa satisfação momentânea.
“Sair do limbo exige a ruptura de uma inércia, remar contra a correnteza e atravessar um deserto que sopra areia nos olhos. Pura violência, puro desconforto, pura reinvenção.”
É na escrita que esse aniquilamento nutrido pelo limbo do cotidiano ganha chance de mudar de cor, de se desfazer e de transformar a impessoalidade em singularidade.
Agradeço aos que tem esse dom de colocar no papel todo o seu pathos, e aí a tradução fica por conta da vontade, paixão ou patologia, como quiserem.
Agradeço aos que se arriscam na empreitada de dar forma escrita ao que não tem forma. O divino mora nessa coragem!

sábado, 9 de outubro de 2010

Pouca Vogal "Além da máscara"

http://twitter.com/CARPINEJAR

DOSES DIÁRIAS DE POESIA E IRREVERÊNCIA.

quinta-feira, 7 de outubro de 2010

O MEU, O SEU, O NOSSO QUERIDO DIÁRIO!

Sobre o limbo:
Martendal me ajudou a conhecer que tentar
sair do limbo seria trocar a prótese por uma autenticidade até então desconhecida, que exporia as facetas não tão apreciadas pela perseverante sociedade.

O sujeito como uma floresta...com regiões ensolaradas e secas, mas também úmidas e escuras.

...tirar tudo a limpo, desprezar a máscara, assumir o desejo, refutar sentidos oferecidos por terceiros que acabam deixando o dia menos nublado em nome de uma certa satisfação momentânea.

Sair do limbo exige a ruptura de uma inércia, remar contra a correnteza e atravessar um deserto que sopra areia nos olhos. Pura violência, puro desconforto, pura reinvençã

Alguém escreveu antes que eu pudesse pensar que: “Só conseguimos deitar no papel, os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. (...) só podemos expor o que somos
Clarice Lispector utiliza o termo Dura Escritura em Água Viva ao expressar o fatigante exercício de escrever “...antes de mais nada te escrevo dura escritura, quero como poder pegar com a mão a palavra”. Outro poeta, inglês, disse: “Que notícias sensacionais podemos obter dos poemas? No entanto, pessoas perecem a cada dia, por falta do que ali se encontra”.
Na busca de criar novos mundos ou novas formas de sentir, utilizamos criativamente a letra para dar conta do silêncio das coisas. Conseguindo significar com palavras o que não é palavra. Como escreve Cargnin no livro A Instabilidade do dragão (relatos de uma bipolar). “Agradeço por um simples caderno e uma caneta terem a capacidade de me acalmar e desabafar ao mundo, sem medo do julgamento o qual, muitas vezes, dá início à incredibilidade”.

É na escrita que esse aniquilamento nutrido pelo limbo do cotidiano ganha chance de mudar de cor, de se desfazer e de transformar impessoalidade em singularidade.

A experiência, e a literatura pode “constituir uma experiência que, ilusória ou não, aparece como um meio de descoberta e de um esforço, não para expressar o que sabemos, mas para sentir o que não sabemos.

Agradeço aos que tem esse dom de colocar no papel todo o seu pathos, e aí a tradução fica por conta da vontade, paixão ou patologia, como quiserem.

Agradeço aos que se arriscam na empreitada de dar forma escrita ao que não tem forma. O divino mora nessa coragem!



S

terça-feira, 31 de agosto de 2010

FAZENDO GÊNERO 9


FAZENDO GÊNERO 9 Diásporas, Diversidades, Deslocamentos

“As mulheres passaram a fazer parte das pautas nas Políticas Públicas nas primeiras décadas do século XX, inicialmente apenas como força de reprodução. Durante as décadas de 80 e 90 as discussões estimularam em 1993 o Ministério da Saúde a incluir no PAISM - Programa de Assistência Integral à Saúde da Mulher, orientações específicas à assistência ao climatério.
A partir dos anos noventa, emerge o conceito de saúde reprodutiva e, somente mais tarde, a compreensão e inclusão dos Direitos Sexuais e Direitos Reprodutivos na pauta dos direitos humanos e da saúde como um conceito mais amplo.
Hoje, vemos a feminização da AIDS, as mortes maternas e o câncer como o resultado de décadas dessa política. “

Tramandaí foi representada em Florianópolis SC, no Seminário Internacional Fazendo Gênero 9, realizado pela Universidade Federal de Santa Catarina nos dias 23 a 26 de agosto pela psicóloga Luciene Tomazi da Silva e colegas de profissão.
A psicóloga apresentou os resultados de sua pesquisa com o artigo Histórias de lobas silenciadas buscando a jovem Perséfone - Menopausa e Gênero, no Simpósio temático: A saúde como diversidade: gênero nas políticas de saúde, coordenado pela Pós-Doutora, professora da ULBRA Torres Graziela Cucchiarelli Werba e Marlene Neves Strey (PUC - RS).
Seu trabalho de pesquisa verificou, juntamente à saúde pública de Tramandaí/RS, quais as políticas públicas engendradas no atendimento das mulheres na maturidade, especificamente durante a menopausa.
Mulheres estas que desejam serem reconhecidas para além das funções fisiológicas e suas limitações.
Mulheres na menopausa, na maturidade, mulheres, que sofrem, que riem, que sentem desejos e dores, contando histórias que só se pode resgatar apurando o ouvido e escutando os sussurros.
Lobas cansadas e silenciadas pela história, buscando espaços de fala. Deméteres apressadas, pois iniciaram escondendo os “paninhos” da menstruação para não incomodarem aos homens da família. Hoje, elas têm urgência em cuidar da própria saúde e por vezes, optando em engolir, o que poderia ser verbalizado.

Luciene Tomazi da Silva
Psicóloga
CRP 07/18329
Atendimento
ENTRE-LAÇOS Espaço Terapêutico
Avenida Atlântica, 1935 – Tramandaí/RS (51) 81949669 e Clínica FUSION (51) 36845197
Particular e Convênios

terça-feira, 10 de agosto de 2010

Vilarejo - Marisa Monte

quinta-feira, 29 de julho de 2010

GRUPO DE LEITURA E REFLEXÃO


Outra vez, sobre “elas”!

Depois de semanas de atrocidades cometidas contra “elas”. Sim porque é bem comum pensarmos que só acontece com “elas”. Quem são “elas”? Elas, as mulheres que estão longe de nós. Mas que podem estar bem perto. Dentro de nossas relações. Somente faltando a coragem para gritar. Pois há o direito ao grito, como nos dizia Lispector, mas ainda não gritamos. Ainda vivemos num mundo em que ser garota de programa, atriz pornô é mais assustador do que ser assassino.
O artigo a seguir é do site http://www.feminal.com.br/quem-somos/ e foi escrito por Rosiska Darcy de Oliveira, escritora e jornalista, que trabalha há 30 anos na liderança de movimentos feministas. Para refletirmos...


“É possível que, nas sombras, uma mulher tenha sido estrangulada e jogada aos cães. Outra, à luz do dia, seria morta a pedradas não a tivesse salvo, in extremis, uma corrente global de defesa de direitos humanos. Por enquanto…
“Uma ‘piranha’ querendo extorquir o goleiro do Flamengo”, me explicou um chofer de táxi, indignado com a injustiça contra o acusado. A outra, adúltera, palavra maldita na boca de aiatolás escandalizados, no Irã do companheiro Ahmadinejad. Fogo, pedras, bala nas costas ou rotweillers, aqui ou lá, são fins previsíveis das mulheres atiradas na vala das indecentes. No Irã, apoiada na religião e na tradição, a execução é legal. No Brasil, é clandestina e selvagem, apoiada na inoperância do Estado e na apatia da sociedade. As delegacias de atendimento a mulher foram necessárias. Quem recorria a uma delegacia comum esbarrava no preconceito da própria polícia. Mereceu a surra que levou? Provocou com pérfida sedução o estupro que sofreu? Houve quem risse, cúmplice,quando o goleiro Bruno perguntou qual o homem que, na vida, nunca saiu na mão com uma mulher. Quem se associaria hoje, mesmo em um sorriso, a tão ilustre pensador? A lei Maria da Penha exprime o repúdio de mulheres de todas as classes à barbárie de um mundo anômico e sombrio. Exigiram proteção do Estado e punição para agressores e assassinos, fossem eles maridos, amantes ou namorados eventuais. Supunha-se que a lei teria efeito punitivo e também dissuasório. Anos depois, o país registra a cifra estarrecedora de uma mulher assassinada a cada duas horas. Que sociedade de orangotangos é essa? Que democracia inconclusa é essa? Paradoxo inexplicável, um país que se apresenta ao mundo como potência emergente, alardeando modernidade, com duas candidatas à presidência da república, é o mesmo que convive com o massacre das mulheres, nos aproximando do que há de mais anacrônico no mundo contemporâneo. Eliza Samudio procurou uma delegacia, invocou uma lei e foi enviada a um juizado que, todos, existiam para protegê-la. Deixada ao desabrigo, foi morta. O sistema judiciário falhou tragicamente. A responsabilidade cabe a ele mesmo apurar e punir. Não é a primeira vez que falha. O jornalista Pimenta Neves, assassino confesso que, pelas costas, executou a amante, condenado a dezenove anos de cadeia, está em liberdade, blindado por artimanhas jurídicas. O cidadão Joseph K, no livro O Processo de Franz Kafka, é encarcerado por um crime cuja acusação não conhece. Pimenta, personagem kafkiano pelo avesso, foi libertado malgrado um crime que confessou. Tão perigosa quanto à violência explícita do crime ou a inoperância da justiça é a violência surda dos olhares enviesados, dos “mas” ou “talvez” que desculpam a brutalidade, argumentando que a moça não era nenhuma santa. Crimes bárbaros encontram atenuante nos “pecados” sexuais atribuídos às mulheres. Só elas são ‘vagabundas’, resguardado aos homens o direito a fazer em matéria de sexo o que bem quiserem sem que isso interfira em outros aspectos de suas vidas ou reputação. Don Juan e Casanova são os modelos mais acabados da virilidade bem sucedida. A literatura está cheia de exemplos de rapazes pobres que “sobem na vida”, casando-se com herdeiras e tudo se passa em um clima de esperteza consentida e incentivada. Não há masculino para piranha. Políticos fazem orgias, jogadores de futebol também, condenadas são as mulheres que delas participam. Eles não, apenas exercem um direito ancestral – são folguedos, farras – onde usam seres humanos como coisas que desprezam. Não nos iludamos, a chamada mulher honesta também apanha se contraria um violento. O sentimento de poder não aceita desobediência. A falha não está somente na justiça. A lei, por melhor que seja, não arranca as raízes de uma cultura perversa. Quem muda a cultura são os homens e mulheres que decidem recusar em suas vidas as relações de poder que deságuam nessa aberração. A sociedade não é uma abstração, é o dia a dia das pessoas, nos gestos de amor ou de ódio, no sexo que reconhece – ou não – qualquer mulher como um ser humano. Assassinos de mulheres não são necessariamente psicopatas. São criminosos que acreditam no seu bom direito de matar e por isso não se arrependem. Mortas, suas vitimas continuam a ser culpadas. Há países islâmicos em que as impuras são jogadas em um buraco e apedrejadas. Não seria essa a encenação perfeita, a atualidade e materialização de uma lei que, não escrita, ainda vigora, também entre nós, inconsciente ou inconfessa?
Luciene Tomazi da Silva | Criar seu atalho

segunda-feira, 19 de julho de 2010

Entre-laçando Re-flexões


Entre pessoas e MÁQUINAS


Na era da modernidade líquida, como nos fala muito bem Bauman (2005), a preferência é dada aos relacionamentos em redes. Estas podem ser tecidas e desmanchadas com semelhante facilidade, e sem que com isso haja algum envolvimento, além do virtual.

E nesta modernidade, conseguiremos criar laços? Pois entre pessoas estão as máquinas. E como manter estes laços na virtualidade?

Outro dia li um artigo intitulado, Entre pessoas e MÁQUINAS, de um educador da USP e observei com interesse a forma de escrita, em letras maiúsculas, da palavra “máquinas”. O intuito, provavelmente, era chamar a atenção para o valor destas, diria até, para a personificação das mesmas. Ora, já vemos por aí crianças e adultos tratando seus laptops e telefones celulares, como se os mesmos, tivessem vida. Abdicando estes de estar em contato real com os seus semelhantes, nas praças, lanchonetes e sorveterias.

Demasiada preocupação? Pode ser. Mas na verdade poderá existir vida sim, nessas máquinas! Existe a história das vidas de crianças e adolescentes sendo tecidas nas redes virtuais. Angústias adolescentes sendo trocadas, divididas e expostas em sites de relacionamento e conversas on-line.

Sem dúvida alguma, as barreiras da timidez, as dificuldades de olhar esse outro, de frente, são diminuídas, se não, inexistentes, através das máquinas.

Algumas vezes, longe do olhar dos pais, podem ser vítimas ou algozes, num tipo de violência, que hoje chamamos de cyberbullyng. Organizando brigas entre bondes, num solitário mundo que pais desconhecem, pois o tempo passa rápido e é necessário trabalhar cada vez mais horas, pouco tempo restando para fortalecer os laços familiares.

No entanto, já observei, no cotidiano de crianças e adolescentes, que esta rede de máquinas, também facilitam o interagir, quebrando o gelo inicial de encontros. Aglutinando os grupos, em torno de interesses afins, como músicas, vídeos e leituras, estimulando com isso o conhecimento.

Então, será sim, na família e na escola e em espaços de educação informal, que podemos incentivar o contato para além do virtual, e assim, tornar mais fortes, os laços sociais.

sábado, 10 de julho de 2010

SABORES DO CAPS

“ÉS CONVIDADA PARA O LANÇAMENTO DO LIVRO "SABORES DO CAPS", DIA 16 DE JULHO AS 16h30min, NO PAVILHÃO CULTURAL DA FESTA DO PEIXE.
UM PROJETO QUE AINDA ONTEM ERA UM SONHO, HOJE SE TORNA REALIDADE. VOCÊ FAZ PARTE DISTO TUDO! MUITO CONTRIBUÍSTES PARA QUE ISSO ACONTECESSE E ..........A C O N T E C E U!!!!!!
RECEBA MEU FRATERNO
ABRAÇO”.

E quais seriam os “Sabores do Caps?” CAPS – Centro de Atenção Psicossocial de Tramandaí/RS. O sabor de anos de formação. Das experiências de estágio. Das experiências de vida partilhadas com pessoas como Paulo!
O que são projetos e sonhos? E como são importantes as pessoas que partilham desses conosco!
Esse meu amigo, que dia 16 lança seu livro, também fez parte dos meus. Compartilhamos alguns anos juntos, aos sabores dos lanches, depois dos atendimentos, grupos e oficinas.
Lembro do aroma do café forte vindo da cozinha. Das conversas ao redor da grande mesa. Dos olhares de carinho...
Os “Sabores do Caps” tem o perfume da amizade, dos investimentos afetivos, dos olhares de compreensão. Possui também, os toques ácidos e apimentados das angústias humanas, demasiado humanas.
Das janelas entreabertas, da chuva chorando nelas...dos saraus e luaus da subjetividade humana, os cheiros recordam sabores conhecidos. Sabores que se eternizaram nos corações dos que lá iniciaram ou re-iniciaran sua caminhada.
Os “Sabores do Caps” trazem a memória as tardes de poemas e poesias. De tristezas e alegrias, das “Emoções passadas a Limpo!”

quinta-feira, 24 de junho de 2010

LA BELLE DE JOUR

LA BELLE DE JOUR CONTEMPORÂNEA

Ou, uma pequena vingança aos personagens de José Mayer?

Posteriormente a um gentil elogio sobre a coluna passada emitido por “Tia Aninha”, nome fictício de uma querida amiga e de sua sugestão para uma próxima coluna “Escreve sobre o personagem da Maitê”, me detive um pouco nas cenas de Estela, personagem de Maitê Proença, numa novela da rede Globo.

Se sou noveleira? Não...estou noveleira! Algo para me distrair da tristeza narrada nos noticiários sobre nosso nordeste e dos “seres humanos” que Saramago já descreveu em Ensaio sobre a Cegueira, vendendo água e gás cinco vezes mais caros, naquela região! Certo, isto já é outra história! Acontece que literatura da boa, cinema ou teledramaturgia, sempre me disparam a pensar sobre as angústias e misérias humanas.

Então, refletindo sobre esse personagem, o da Maitê, lembrei:

“(...) da moça bonita da praia de Boa Viagem, da moça no meio da tarde de um domingo azul. Azul, era Belle de Jour, era a bela da tarde. Seus olhos azuis como a tarde. Na tarde de um domingo azul, La Belle de Jour!

La Belle de Jour era a moça mais linda de toda a cidade. E foi justamente pra ela, que eu escrevi o meu primeiro blues...Mas Belle de Jour no azul viajava, seus olhos azuis como a tarde...
Na tarde de um domingo azul... La Belle de Jour!...
(Alceu Valença)

Nossa belle Maitê, em entrevista a Folha de São Paulo, menciona que já havia feito outros personagens infiéis, vulgares, que ofereciam favores sexuais em troco de dinheiro, mas nunca uma “traidora convicta” , como a Stela e conta que esta trai o marido “para respirar, sentir que não é o lixo que ele a faz sentir”, sendo truculento, agressivo, desagradável e grosso. Justifica ainda que escolhe os garotões, pois “os jovens não se incomodam com rugas e um corpo imperfeito, têm disponibilidade para uma aventura sem nome, correm riscos sem ter que fazer grandes conjecturas e admiram a experiência”. Ela toma a iniciativa, ela decide com quem, ainda que quase compulsivamente. Talvez só até encontrar em viajantes tardes azuis alguém que traga mais ar e a faça se apaixonar.

Em minhas leituras me deparo com um filme dos anos sessenta que tal qual a música de Alceu Valença se chama La Belle de Jour. Este filme foi um marco do cinema francês, dirigido por Luis Bunuel, que tem como trama o comportamento transgressor da protagonista e prostituta Séverine, estrelada pela atriz francesa Catherine Deneuve. Este nos remete a relações de poderes e saberes sobre os corpos historicamente construídos e imputados aos seres humanos, principalmente, às mulheres. E tem nos enunciados de normal e anormal, instrumentos de produção de identidades e subjetividades.

Assim, desde o início, o filme discute a constituição da identidade a partir das posições sociais e das relações, verticais e horizontais, entre os personagens e seu meio.

Severine se indaga: “O que há comigo hoje?” Esta frase é um exercício de presença. Se até então Severine estava posicionada, na história de sua vida, sendo conduzida, neste momento tenta tomar as rédeas de sua carruagem.

Para Maitê, Stela tem uma secura parecida com o personagem do filme francês. Uma aridez de quem carrega tristezas. E as suas traições não a satisfazem. Na hora um grande prazer e na volta pra casa, a melancolia toma conta.

Ao ser interrogada sobre o merecimento de traição de Saulo a atriz brasileira refere que, “merecer é vício da igreja católica apostólica, que fala de merecimentos, culpas e penas”. No entanto Stela é a única pessoa que Saulo escuta e tem na vida. Sucumbiria sem ela, ainda que nem a olhe? Bom, ainda teremos tempo para mais hipóteses! Mas se lembrarmos que os personagens de José Mayer, tinham o mesmo tipo de comportamento....

O que há no interior destas reflexões é a invenção, através da História, das normas do que é a verdade e o falso sobre nós. Não é nos indagarmos se Severine, a burguesa que se prostitui, vivida por Catherine Deneuve, ou a Stela, protagonizada por Maitê Proença, são ninfomaníacas, anormais, compulsivas, desregradas, desviantes ou qualquer outra denominação preconceituosa que emita, um valor sobre a conduta dela.

É refletirmos em que condições histórico-sociais é possível reconhecê-la como determinado sujeito de uma certa sexualidade, no caso desviante não enquanto pré-concepção de um comportamento pessoal, mas desviante, sim, da norma burguesa e, portanto, de uma certa concepção histórica de nós mesmos?

E, ainda, questionarmos como nos reconhecemos a nós mesmos como sujeitos de uma determinada verdade, seja ela sexual, comportamental, ética, estética, artística, profissional, relacional, etc.? E qual a formação dos procedimentos histórico-culturais pelos quais somos levados a nos observarmos, a nos analisarmos, a nos deciframos como ajustados, disciplinados, perversos, normais, anormais, pecaminosos, salvos, abençoados, excluídos, marginalizados, adequados, etc?

Isto porque, ao pensarmos, sentirmos, desejarmos, já estamos enredados a contextos culturais e, ao mesmo tempo, resistindo às suas influências, sejam eles a família, os amigos, a cidade, o país, dentre outros.

Assim, tal qual Severine ou Stela, vivemos o devir da renovação de nossos horizontes pessoais, repletos de história, no qual nos lançamos, corporal e psiquicamente, através da oscilação, criativa e angustiante, de experimentarmos - às vezes, mais rasteiramente, às vezes, mais elevadamente - a carruagem ou o carro da moda da nossa própria caminhada.

Referências Bibliográficas

Dossiê Foucault – Revista Aulas e Folha de São Paulo on line.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Laços

Nunca tinha reparado como é curioso um laço...

Um fita dando voltas que se enrosca...
Mas não se embola.
Vira, revira, circula e pronto:
Está dado o laço.

Assim como um abraço:
Coração com coração.

Tudo isso cercado de muito braço.

É assim que é o laço:
Um abraço no presente...
No cabelo...
No vestido...
Em qualquer coisa que faço.

E quando puxo uma ponta,
O que é que acontece?

Vai escorregando... devagarzinho... Desmancha... desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo...
E na fita que curioso,
Não faltou nenhum pedaço.

Ah! Então é assim o amor, a amizade.
Tudo o que é sentimento?
Como um pedaço de fita?

Enrosca, segura um pouquinho,
Mas pode desfazer a qualquer hora, Deixando livre as duas pontas do laço.

Por isso é que se diz:
Laço afetivo, laço de amizade...

E quando alguém briga, então se diz: Romperam-se os laços...

Assim é o amor...
Não prende, não escraviza,
Não aperta, não sufoca.
Porque quando vira nó,
Já deixou de ser laço.

(Autoria:Maria Beatriz
Marinho dos Anjos )

Que lindo esse poema! Sugestão da querida Sabrina! Parte dos meus laços!



NINE E PASSIONE, SOB O SOL DE TOSCANA
Contando histórias e quebrando alguns silêncios

Se não bastassem os lindos cenários da Itália, nas três produções. As paixões e desilusões, escolhas e desejos atravessam as histórias de várias mulheres, protagonistas e coadjuvantes das tramas.
Nine, os especialistas em cinema o criticam, pela tentativa, dizem fracassada, de uma refilmagem de um clássico de Fellini. Neste musical, dramático, um cineasta em crise, recria através de sua vida, um novo filme de sucesso. O que deslumbra, são as mulheres da trama. As mulheres que de uma forma ou de outra, fizeram parte da vida dele. E a forma como cada uma foi sentida por ele. Algumas com uma dose maior ou menor de machismo, no entanto, histórias intensas, em torno de um homem. Mãe, amante, esposa, prostituta, diva, assistente, fã, o servindo!
Passione? Citaria ao menos duas mulheres que iniciam a trama sofrendo por silêncios guardados e quebrados. A mãe, que teve seu filho levado para longe, pois o marido não suportou criar o filho de outro homem e a irmã, na Itália, que vê o protagonista sofrendo pelos anos silenciados.
Claro que isso me levou, num associar de pensamentos ao filme Sob o Sol de Toscana, onde a escritora, só consegue voltar a escrever depois de vários anos vivendo silenciosamente, longe de seu país, distante de suas decepções amorosas, no calor e aconchego de estrangeiros que a escutam e assim ajudam a curar suas cicatrizes.
Com esses estímulos, voltei a pensar no silêncio e no cansaço das lobas.
As primeiras dúvidas surgiram por ocasião de meus 10 anos de idade, enquanto minha mãe assistia a um programa de televisão denominado TV Mulher. Um dos quadros desse programa era apresentado por uma psicóloga especialista em sexologia, que respondia perguntas de mulheres que para lá escreviam. As dúvidas das telespectadoras giravam em torno das angústias domésticas e sexuais e eram respondidas cuidadosamente pela especialista.
Mais tarde, no arder da adolescência e início da vida adulta, ouvi as mesmas queixas das mulheres, “Mamas Italianas” da minha família e pude, finalmente, identificar que a tão falada “idade incômoda”, se relacionava com a proximidade ou chegada do climatério e menopausa. Também era comum ouvir, que só não é pior que ficar “mocinha”.

Mas, como sair dos quarenta, popularmente denominados, a idade da loba? Que idade é essa? Será que existe? Como aceitar as transformações corporais e psíquicas e conquistar uma maturidade tranqüila, com tempo para outras atividades?
Inúmeras são as denominações para a mulher madura que ultrapassa os quarenta anos e de acordo com Estés (2007), esse termo – loba - passou a ser usado em função de uma comparação das mulheres a esses seres, misteriosos e míticos.
De acordo com pesquisas, aos quarenta anos de idade, aproximadamente, a maioria das mulheres têm filhos crescidos, quem sabe casados, talvez netos morando em casa e, provavelmente, pais necessitando de cuidados.
Um pouco mais tarde, com o início do climatério e a aproximação da menopausa, essas mulheres, cumpriram um roteiro e viveram seus personagens com devoção. Encararam o terrorismo da moralidade, acataram as assimetrias de poder relacionadas aos gêneros, e agora, enfrentam a ditadura da estética, com o medo de envelhecer.
A menopausa é considerada como uma fase, uma etapa da vida, um período de transição que constrange, pois seu estado é revelado publicamente. Parece se denunciar na vermelhidão do rosto, no calor insuportável, nos ossos enfraquecidos, nos sintomas depressivos, nas mudanças da libido e no ressecamento das mucosas (MARTIN, 2006). Além das mudanças hormonais, as mulheres maduras têm que lidar com a pressão social para a beleza e a juventude. Entretanto, nessa etapa da vida elas apresentam mais cansaço, esgotamento e algumas, uma tendência ao silêncio. É comum que elas se comparem à terra, que outrora fecunda, secou e, se identifiquem com mercadorias cujo prazo de validade venceu.
Para Bauman (2007), essa é a lógica líquida na qual nos livramos das coisas que ultrapassaram a data de seu vencimento, coisas que não produzem mais. Nada pode permanecer muito tempo ou se tornar consistente, pois a busca pelo novo é a ordem do mercado, cuja conseqüência mais perversa é tratar aos seres humanos também como excesso, como lixo desprezado.
As mulheres que se identificam com esse modelo são as que se tornam mais silenciosas, aprisionadas, submetidas e adeptas a uma disciplinarização do corpo pela medicina. “Nada que um calmante ou um antidepressivo não resolva”.
Outras mulheres se espelham no mito de Deméter, deusa grega da fertilidade, representada sempre por uma mulher madura e séria, que busca desesperadamente resgatar sua jovem filha Perséfone, sequestrada por seu tio Hades e levada para longe (DEBBIO, 2008).
Podemos refletir sobre esta metáfora, pois vemos a procura incessante por tratamentos, medicamentos e procedimentos rejuvenescedores e a imposição do culto ao corpo para manter uma aparência jovem, pela cultura contemporânea.

sexta-feira, 4 de junho de 2010



SAÚDE DA MULHER - INTEGRALMENTE
Contribuindo para quebrar silêncios


Ao ver na locadora o filme O Diário Proibido, baseado na obra de Valérie Tasso, escritora da biografia Diario de una ninfómana, ocorreu-me que ao olhar simplesmente para o título e o cartaz, ele poderia facilmente passar por um filme pornô na prateleira errada. Mero apelo visual da indústria da imagem.
No entanto este título despertou-me curiosidade. Pois ainda temos no CID (Código Internacional de Doenças) a NINFOMANIA como “um transtorno psiquiátrico sem razões biológicas que expliquem a sua origem”. E infelizmente, ainda vivemos numa sociedade machista, preconceituosa e cheia de tabus. Claro, muitos avanços, mas ainda não suficientes.
Numa das cenas do filme, a avó da protagonista fala para a neta, sobre essa desigualdade, “na qual um homem que transa com todas as mulheres é um orgulhoso ‘garanhão’, ao tempo em que se uma mulher tem relações com diversos homens é tida como uma ‘vagabunda’, como se fosse obrigada a ser uma eterna submissa”. E além disso, a aconselha a escrever sobre suas angustias, caso não consiga falar sobre.
Há algum tempo pesquiso e escrevo sobre a SAÚDE DA MULHER, especificamente na MATURIDADE e os seus silêncios, e concordo com Montgomery, médico ginecologista, que muitas vezes suas dores são investigadas por meio de exames, quando o diagnóstico poderia ser encontrado nos olhos desta mulher. Escutando alguns minutos a mais.
Em vista da manutenção do papel de cuidadora, a mulher termina deixando seus interesses sempre em segundo plano. Se, por ventura se arrisca a buscar autonomia, a realizar seus desejos, é compelida a seguir se responsabilizando por todas as questões domésticas. É acionada a culpar-se pelas questões escolares dos filhos, pela camisa manchada do marido, ainda que, em alguns momentos, sua presença nem seja percebida no contexto familiar. Um bom modelo desse estereótipo de gênero pode ser visto no filme italiano Pão e Tulipas, de Silvio Soldine (2000).
O motivo das mulheres buscarem incessantemente por medicação e consultas médicas, poderia ser um alívio para outras dores, dificuldades pessoais e familiares, e, não encontrando esse espaço, acabam retornando inúmeras vezes ao sistema de saúde, congestionando-o e, ao mesmo tempo, intensificando suas queixas.
De acordo com Werba (NO PRELO): “Há um longo histórico sobre os movimentos, derrotas e conquistas das mulheres na área da saúde, mas, evidentemente, é o movimento feminista em seu conjunto, o maior responsável pelos avanços neste setor”.
De acordo com Pegoraro e Caldana, (2008) estas mulheres foram silenciadas e passivisadas ao longo da história. Entretanto, elas sempre têm desejos e se culpam por quererem além do que os serviços de saúde oferecem.
É importante ressaltar que essa dominação não foi exercida de modo suave, sem resistência. As mulheres sempre lutaram por autonomia e cidadania, enfrentando todas as formas de violência e discriminação. E como vemos, na área da saúde, não foi diferente.
Mulheres na menopausa, na maturidade, mulheres, que sofrem, que riem, que sentem desejos e dores, contando histórias que só se pode resgatar apurando o ouvido e escutando os sussurros.
Lobas cansadas e silenciadas pela história, buscando espaços de fala. Deméteres apressadas, pois iniciaram escondendo os “paninhos” da menstruação para não incomodarem aos homens da família. Hoje, elas têm urgência em cuidar da própria saúde, seguir prescrições, tentando eliminar o sofrimento, abrandar os calorões, aumentar o desejo sexual e solucionar o “algo” errado, que acontece com elas neste período.
Apressam-se, para deste modo, poderem voltar plenamente às suas atividades cotidianas. Buscam silenciosas, alívios químicos para seu sofrimento, procurando algo que esconda, ou iniba suas dores, aceitando assim, engolir o que poderia ser verbalizado.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

SAÚDE MENTAL

“...estou no norte do estado, um lugar lindo, cheio de subidas e descidas, para ter uma ideia o lugar mais baixo da cidade fica 300 metros nível do mar e o pico mais alto 900 metros nível do mar, em Itatiba do Sul, no hospital municipal...”

Esse scrap, recado, na minha página do orkut, deixado por um amigo querido, que conseguiu um trabalho de psicólogo neste local, disparou em mim, algumas associações, relacionadas ao tema, “Saúde Mental”.

Lembrei-me de Patch Adams, O Amor é Contagioso (alguém já viu o filme)? Ele, ainda hoje, contagia genuinamente. Mesmo que busquemos a verdadeira história deste médico, e a mesma, não seja tão romanceadamente engraçada como no filme. Ela afeta! Faz-nos pensar no quanto este sistema massacra os doutores da saúde e junto com eles, os que aguardam, nos corredores e salas de espera, por algo mais que um anti-inflamatório, um CID (Código Internacional de Doenças), ou o antidepressivo do momento.

Pensei na proposta do Ministério da Saúde, HUMANIZA SUS. Que é ótima, pois prevê a INTEGRALIDADE da saúde do ser humano. Mas, essa é uma história loooonga!

Lembrei também de um livro que cheia de arrogância de recém formada, olhei com desdém, “Xiiii, é auto-ajuda” O Futuro da Humanidade de Augusto Cury e costurei tudo isso aos retalhos de minha trajetória de acadêmica e recém formada.

Neste juntar de retalhos em minha mente, foram surgindo os locais em que realizei meus trabalhos, buscando novas possibilidades de atenção aos que sofriam com diversas questões.

A escuta de um limpar de feridas do coração e da alma. O acreditar e acolher demandas individuais que aos poucos se mostravam coletivas e vice-versa. Histórias que desacomodavam, que faziam com que o conforto da poltrona do domingo fosse substituído por uma inquietação gigantesca. Foram momentos de “atravessar desertos com areia nos olhos”.

No entanto, alguns profissionais da saúde me fizeram acreditar que o amor e a paixão pelo outro, ainda prevalece nas suas ações. Ensinaram-me a relevância da atuação interdisciplinar. Que a saúde não pode ser entendida e praticada com um conjunto de ações e saberes isolados. E que, portanto, era necessário produzir ações comuns, sem o predomínio de uma profissão ou campo como detentora das diretrizes do trabalho generalista.

Penso que entendi que somente a partir desta ética dos “afetos”, será possível pensar-se a saúde mental. Somente participando com implicação e envolvimento, para que os grupos se desenvolvam e se tornem conscientes e aptos a exercer atividades cooperativas e organizadas, buscando a emancipação humana.

Muitos foram os que passaram e irão passar por minha história profissional. Muitos permitiram minha aprendizagem. Alguns, no entanto, contribuíram para que eu entendesse que também se faz psicologia em micropolíticas, nas intervenções cotidianas. Estes ampliaram o exercício de minha in-conformação com as práticas que despotencializam e silenciam a vida.

Esses sim, proporcionaram os bons encontros. E para estes uma homenagem de um texto, que como diz o poema de Milton Nascimento: “Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece como não fui eu que fui eu que fiz”?

“Estar por perto quando as crises acontecem, sentir junto a angústia de vozes que insistem em dizer algo, perceber o corpo que poucos percebem, negociar em cima do telhado, temer os medos comuns de quem, por sorte, sempre se faz diferente.

Combinar combinados sempre a recombinar. Compartilhar a criação de um mundo em que caibam pessoas, pessoas como nós...Experimentar adoecer e, de cuidador, passar a ser cuidado.

Reconhecer o não ter respostas e tentar construí-la junto ao outro – tão igual...

Conhecer novos valores, se permitir chorar, assumir o risco de confiar nos vínculos.

Se assustar com o tamanho da dor e mesmo assim, por força maior, querer estar por perto.

Conhecer de perto demais a impotência frente a morte e a força poderosa da sobrevivência.

Fazer amigos e parceiros, se permitir questionar a si próprio, aprender que pouco se sabe – e o quanto há pra se aprender, criar expectativas – ora pequenas, ora grandes demais!

E ter de mudá-las, reconstruí-las, resgatá-las e conviver num mesmo espaço (que sempre será pequeno para tanto) com famílias, usuários, equipe, outras equipes: pacientes e impacientes...” (SURJUS, 2007, p.

10).