LA BELLE DE JOUR CONTEMPORÂNEA
Ou, uma pequena vingança aos personagens de José Mayer?
Posteriormente a um gentil elogio sobre a coluna passada emitido por “Tia Aninha”, nome fictício de uma querida amiga e de sua sugestão para uma próxima coluna “Escreve sobre o personagem da Maitê”, me detive um pouco nas cenas de Estela, personagem de Maitê Proença, numa novela da rede Globo.
Se sou noveleira? Não...estou noveleira! Algo para me distrair da tristeza narrada nos noticiários sobre nosso nordeste e dos “seres humanos” que Saramago já descreveu em Ensaio sobre a Cegueira, vendendo água e gás cinco vezes mais caros, naquela região! Certo, isto já é outra história! Acontece que literatura da boa, cinema ou teledramaturgia, sempre me disparam a pensar sobre as angústias e misérias humanas.
Então, refletindo sobre esse personagem, o da Maitê, lembrei:
“(...) da moça bonita da praia de Boa Viagem, da moça no meio da tarde de um domingo azul. Azul, era Belle de Jour, era a bela da tarde. Seus olhos azuis como a tarde. Na tarde de um domingo azul, La Belle de Jour!
La Belle de Jour era a moça mais linda de toda a cidade. E foi justamente pra ela, que eu escrevi o meu primeiro blues...Mas Belle de Jour no azul viajava, seus olhos azuis como a tarde...
Na tarde de um domingo azul... La Belle de Jour!...(Alceu Valença)
Nossa belle Maitê, em entrevista a Folha de São Paulo, menciona que já havia feito outros personagens infiéis, vulgares, que ofereciam favores sexuais em troco de dinheiro, mas nunca uma “traidora convicta” , como a Stela e conta que esta trai o marido “para respirar, sentir que não é o lixo que ele a faz sentir”, sendo truculento, agressivo, desagradável e grosso. Justifica ainda que escolhe os garotões, pois “os jovens não se incomodam com rugas e um corpo imperfeito, têm disponibilidade para uma aventura sem nome, correm riscos sem ter que fazer grandes conjecturas e admiram a experiência”. Ela toma a iniciativa, ela decide com quem, ainda que quase compulsivamente. Talvez só até encontrar em viajantes tardes azuis alguém que traga mais ar e a faça se apaixonar.
Em minhas leituras me deparo com um filme dos anos sessenta que tal qual a música de Alceu Valença se chama La Belle de Jour. Este filme foi um marco do cinema francês, dirigido por Luis Bunuel, que tem como trama o comportamento transgressor da protagonista e prostituta Séverine, estrelada pela atriz francesa Catherine Deneuve. Este nos remete a relações de poderes e saberes sobre os corpos historicamente construídos e imputados aos seres humanos, principalmente, às mulheres. E tem nos enunciados de normal e anormal, instrumentos de produção de identidades e subjetividades.
Assim, desde o início, o filme discute a constituição da identidade a partir das posições sociais e das relações, verticais e horizontais, entre os personagens e seu meio.
Severine se indaga: “O que há comigo hoje?” Esta frase é um exercício de presença. Se até então Severine estava posicionada, na história de sua vida, sendo conduzida, neste momento tenta tomar as rédeas de sua carruagem.
Para Maitê, Stela tem uma secura parecida com o personagem do filme francês. Uma aridez de quem carrega tristezas. E as suas traições não a satisfazem. Na hora um grande prazer e na volta pra casa, a melancolia toma conta.
Ao ser interrogada sobre o merecimento de traição de Saulo a atriz brasileira refere que, “merecer é vício da igreja católica apostólica, que fala de merecimentos, culpas e penas”. No entanto Stela é a única pessoa que Saulo escuta e tem na vida. Sucumbiria sem ela, ainda que nem a olhe? Bom, ainda teremos tempo para mais hipóteses! Mas se lembrarmos que os personagens de José Mayer, tinham o mesmo tipo de comportamento....
O que há no interior destas reflexões é a invenção, através da História, das normas do que é a verdade e o falso sobre nós. Não é nos indagarmos se Severine, a burguesa que se prostitui, vivida por Catherine Deneuve, ou a Stela, protagonizada por Maitê Proença, são ninfomaníacas, anormais, compulsivas, desregradas, desviantes ou qualquer outra denominação preconceituosa que emita, um valor sobre a conduta dela.
É refletirmos em que condições histórico-sociais é possível reconhecê-la como determinado sujeito de uma certa sexualidade, no caso desviante não enquanto pré-concepção de um comportamento pessoal, mas desviante, sim, da norma burguesa e, portanto, de uma certa concepção histórica de nós mesmos?
E, ainda, questionarmos como nos reconhecemos a nós mesmos como sujeitos de uma determinada verdade, seja ela sexual, comportamental, ética, estética, artística, profissional, relacional, etc.? E qual a formação dos procedimentos histórico-culturais pelos quais somos levados a nos observarmos, a nos analisarmos, a nos deciframos como ajustados, disciplinados, perversos, normais, anormais, pecaminosos, salvos, abençoados, excluídos, marginalizados, adequados, etc?
Isto porque, ao pensarmos, sentirmos, desejarmos, já estamos enredados a contextos culturais e, ao mesmo tempo, resistindo às suas influências, sejam eles a família, os amigos, a cidade, o país, dentre outros.
Assim, tal qual Severine ou Stela, vivemos o devir da renovação de nossos horizontes pessoais, repletos de história, no qual nos lançamos, corporal e psiquicamente, através da oscilação, criativa e angustiante, de experimentarmos - às vezes, mais rasteiramente, às vezes, mais elevadamente - a carruagem ou o carro da moda da nossa própria caminhada.
Referências Bibliográficas
Dossiê Foucault – Revista Aulas e Folha de São Paulo on line.

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