Entre Laços - Espaço terapêutico

quarta-feira, 9 de junho de 2010


NINE E PASSIONE, SOB O SOL DE TOSCANA
Contando histórias e quebrando alguns silêncios

Se não bastassem os lindos cenários da Itália, nas três produções. As paixões e desilusões, escolhas e desejos atravessam as histórias de várias mulheres, protagonistas e coadjuvantes das tramas.
Nine, os especialistas em cinema o criticam, pela tentativa, dizem fracassada, de uma refilmagem de um clássico de Fellini. Neste musical, dramático, um cineasta em crise, recria através de sua vida, um novo filme de sucesso. O que deslumbra, são as mulheres da trama. As mulheres que de uma forma ou de outra, fizeram parte da vida dele. E a forma como cada uma foi sentida por ele. Algumas com uma dose maior ou menor de machismo, no entanto, histórias intensas, em torno de um homem. Mãe, amante, esposa, prostituta, diva, assistente, fã, o servindo!
Passione? Citaria ao menos duas mulheres que iniciam a trama sofrendo por silêncios guardados e quebrados. A mãe, que teve seu filho levado para longe, pois o marido não suportou criar o filho de outro homem e a irmã, na Itália, que vê o protagonista sofrendo pelos anos silenciados.
Claro que isso me levou, num associar de pensamentos ao filme Sob o Sol de Toscana, onde a escritora, só consegue voltar a escrever depois de vários anos vivendo silenciosamente, longe de seu país, distante de suas decepções amorosas, no calor e aconchego de estrangeiros que a escutam e assim ajudam a curar suas cicatrizes.
Com esses estímulos, voltei a pensar no silêncio e no cansaço das lobas.
As primeiras dúvidas surgiram por ocasião de meus 10 anos de idade, enquanto minha mãe assistia a um programa de televisão denominado TV Mulher. Um dos quadros desse programa era apresentado por uma psicóloga especialista em sexologia, que respondia perguntas de mulheres que para lá escreviam. As dúvidas das telespectadoras giravam em torno das angústias domésticas e sexuais e eram respondidas cuidadosamente pela especialista.
Mais tarde, no arder da adolescência e início da vida adulta, ouvi as mesmas queixas das mulheres, “Mamas Italianas” da minha família e pude, finalmente, identificar que a tão falada “idade incômoda”, se relacionava com a proximidade ou chegada do climatério e menopausa. Também era comum ouvir, que só não é pior que ficar “mocinha”.

Mas, como sair dos quarenta, popularmente denominados, a idade da loba? Que idade é essa? Será que existe? Como aceitar as transformações corporais e psíquicas e conquistar uma maturidade tranqüila, com tempo para outras atividades?
Inúmeras são as denominações para a mulher madura que ultrapassa os quarenta anos e de acordo com Estés (2007), esse termo – loba - passou a ser usado em função de uma comparação das mulheres a esses seres, misteriosos e míticos.
De acordo com pesquisas, aos quarenta anos de idade, aproximadamente, a maioria das mulheres têm filhos crescidos, quem sabe casados, talvez netos morando em casa e, provavelmente, pais necessitando de cuidados.
Um pouco mais tarde, com o início do climatério e a aproximação da menopausa, essas mulheres, cumpriram um roteiro e viveram seus personagens com devoção. Encararam o terrorismo da moralidade, acataram as assimetrias de poder relacionadas aos gêneros, e agora, enfrentam a ditadura da estética, com o medo de envelhecer.
A menopausa é considerada como uma fase, uma etapa da vida, um período de transição que constrange, pois seu estado é revelado publicamente. Parece se denunciar na vermelhidão do rosto, no calor insuportável, nos ossos enfraquecidos, nos sintomas depressivos, nas mudanças da libido e no ressecamento das mucosas (MARTIN, 2006). Além das mudanças hormonais, as mulheres maduras têm que lidar com a pressão social para a beleza e a juventude. Entretanto, nessa etapa da vida elas apresentam mais cansaço, esgotamento e algumas, uma tendência ao silêncio. É comum que elas se comparem à terra, que outrora fecunda, secou e, se identifiquem com mercadorias cujo prazo de validade venceu.
Para Bauman (2007), essa é a lógica líquida na qual nos livramos das coisas que ultrapassaram a data de seu vencimento, coisas que não produzem mais. Nada pode permanecer muito tempo ou se tornar consistente, pois a busca pelo novo é a ordem do mercado, cuja conseqüência mais perversa é tratar aos seres humanos também como excesso, como lixo desprezado.
As mulheres que se identificam com esse modelo são as que se tornam mais silenciosas, aprisionadas, submetidas e adeptas a uma disciplinarização do corpo pela medicina. “Nada que um calmante ou um antidepressivo não resolva”.
Outras mulheres se espelham no mito de Deméter, deusa grega da fertilidade, representada sempre por uma mulher madura e séria, que busca desesperadamente resgatar sua jovem filha Perséfone, sequestrada por seu tio Hades e levada para longe (DEBBIO, 2008).
Podemos refletir sobre esta metáfora, pois vemos a procura incessante por tratamentos, medicamentos e procedimentos rejuvenescedores e a imposição do culto ao corpo para manter uma aparência jovem, pela cultura contemporânea.

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