Contribuindo para quebrar silêncios
Ao ver na locadora o filme O Diário Proibido, baseado na obra de Valérie Tasso, escritora da biografia Diario de una ninfómana, ocorreu-me que ao olhar simplesmente para o título e o cartaz, ele poderia facilmente passar por um filme pornô na prateleira errada. Mero apelo visual da indústria da imagem.
No entanto este título despertou-me curiosidade. Pois ainda temos no CID (Código Internacional de Doenças) a NINFOMANIA como “um transtorno psiquiátrico sem razões biológicas que expliquem a sua origem”. E infelizmente, ainda vivemos numa sociedade machista, preconceituosa e cheia de tabus. Claro, muitos avanços, mas ainda não suficientes.
Numa das cenas do filme, a avó da protagonista fala para a neta, sobre essa desigualdade, “na qual um homem que transa com todas as mulheres é um orgulhoso ‘garanhão’, ao tempo em que se uma mulher tem relações com diversos homens é tida como uma ‘vagabunda’, como se fosse obrigada a ser uma eterna submissa”. E além disso, a aconselha a escrever sobre suas angustias, caso não consiga falar sobre.
Há algum tempo pesquiso e escrevo sobre a SAÚDE DA MULHER, especificamente na MATURIDADE e os seus silêncios, e concordo com Montgomery, médico ginecologista, que muitas vezes suas dores são investigadas por meio de exames, quando o diagnóstico poderia ser encontrado nos olhos desta mulher. Escutando alguns minutos a mais.
Em vista da manutenção do papel de cuidadora, a mulher termina deixando seus interesses sempre em segundo plano. Se, por ventura se arrisca a buscar autonomia, a realizar seus desejos, é compelida a seguir se responsabilizando por todas as questões domésticas. É acionada a culpar-se pelas questões escolares dos filhos, pela camisa manchada do marido, ainda que, em alguns momentos, sua presença nem seja percebida no contexto familiar. Um bom modelo desse estereótipo de gênero pode ser visto no filme italiano Pão e Tulipas, de Silvio Soldine (2000).
O motivo das mulheres buscarem incessantemente por medicação e consultas médicas, poderia ser um alívio para outras dores, dificuldades pessoais e familiares, e, não encontrando esse espaço, acabam retornando inúmeras vezes ao sistema de saúde, congestionando-o e, ao mesmo tempo, intensificando suas queixas.
De acordo com Werba (NO PRELO): “Há um longo histórico sobre os movimentos, derrotas e conquistas das mulheres na área da saúde, mas, evidentemente, é o movimento feminista em seu conjunto, o maior responsável pelos avanços neste setor”.
De acordo com Pegoraro e Caldana, (2008) estas mulheres foram silenciadas e passivisadas ao longo da história. Entretanto, elas sempre têm desejos e se culpam por quererem além do que os serviços de saúde oferecem.
É importante ressaltar que essa dominação não foi exercida de modo suave, sem resistência. As mulheres sempre lutaram por autonomia e cidadania, enfrentando todas as formas de violência e discriminação. E como vemos, na área da saúde, não foi diferente.
Mulheres na menopausa, na maturidade, mulheres, que sofrem, que riem, que sentem desejos e dores, contando histórias que só se pode resgatar apurando o ouvido e escutando os sussurros.
Lobas cansadas e silenciadas pela história, buscando espaços de fala. Deméteres apressadas, pois iniciaram escondendo os “paninhos” da menstruação para não incomodarem aos homens da família. Hoje, elas têm urgência em cuidar da própria saúde, seguir prescrições, tentando eliminar o sofrimento, abrandar os calorões, aumentar o desejo sexual e solucionar o “algo” errado, que acontece com elas neste período.
Apressam-se, para deste modo, poderem voltar plenamente às suas atividades cotidianas. Buscam silenciosas, alívios químicos para seu sofrimento, procurando algo que esconda, ou iniba suas dores, aceitando assim, engolir o que poderia ser verbalizado.


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