Entre Laços - Espaço terapêutico

quinta-feira, 24 de junho de 2010

LA BELLE DE JOUR

LA BELLE DE JOUR CONTEMPORÂNEA

Ou, uma pequena vingança aos personagens de José Mayer?

Posteriormente a um gentil elogio sobre a coluna passada emitido por “Tia Aninha”, nome fictício de uma querida amiga e de sua sugestão para uma próxima coluna “Escreve sobre o personagem da Maitê”, me detive um pouco nas cenas de Estela, personagem de Maitê Proença, numa novela da rede Globo.

Se sou noveleira? Não...estou noveleira! Algo para me distrair da tristeza narrada nos noticiários sobre nosso nordeste e dos “seres humanos” que Saramago já descreveu em Ensaio sobre a Cegueira, vendendo água e gás cinco vezes mais caros, naquela região! Certo, isto já é outra história! Acontece que literatura da boa, cinema ou teledramaturgia, sempre me disparam a pensar sobre as angústias e misérias humanas.

Então, refletindo sobre esse personagem, o da Maitê, lembrei:

“(...) da moça bonita da praia de Boa Viagem, da moça no meio da tarde de um domingo azul. Azul, era Belle de Jour, era a bela da tarde. Seus olhos azuis como a tarde. Na tarde de um domingo azul, La Belle de Jour!

La Belle de Jour era a moça mais linda de toda a cidade. E foi justamente pra ela, que eu escrevi o meu primeiro blues...Mas Belle de Jour no azul viajava, seus olhos azuis como a tarde...
Na tarde de um domingo azul... La Belle de Jour!...
(Alceu Valença)

Nossa belle Maitê, em entrevista a Folha de São Paulo, menciona que já havia feito outros personagens infiéis, vulgares, que ofereciam favores sexuais em troco de dinheiro, mas nunca uma “traidora convicta” , como a Stela e conta que esta trai o marido “para respirar, sentir que não é o lixo que ele a faz sentir”, sendo truculento, agressivo, desagradável e grosso. Justifica ainda que escolhe os garotões, pois “os jovens não se incomodam com rugas e um corpo imperfeito, têm disponibilidade para uma aventura sem nome, correm riscos sem ter que fazer grandes conjecturas e admiram a experiência”. Ela toma a iniciativa, ela decide com quem, ainda que quase compulsivamente. Talvez só até encontrar em viajantes tardes azuis alguém que traga mais ar e a faça se apaixonar.

Em minhas leituras me deparo com um filme dos anos sessenta que tal qual a música de Alceu Valença se chama La Belle de Jour. Este filme foi um marco do cinema francês, dirigido por Luis Bunuel, que tem como trama o comportamento transgressor da protagonista e prostituta Séverine, estrelada pela atriz francesa Catherine Deneuve. Este nos remete a relações de poderes e saberes sobre os corpos historicamente construídos e imputados aos seres humanos, principalmente, às mulheres. E tem nos enunciados de normal e anormal, instrumentos de produção de identidades e subjetividades.

Assim, desde o início, o filme discute a constituição da identidade a partir das posições sociais e das relações, verticais e horizontais, entre os personagens e seu meio.

Severine se indaga: “O que há comigo hoje?” Esta frase é um exercício de presença. Se até então Severine estava posicionada, na história de sua vida, sendo conduzida, neste momento tenta tomar as rédeas de sua carruagem.

Para Maitê, Stela tem uma secura parecida com o personagem do filme francês. Uma aridez de quem carrega tristezas. E as suas traições não a satisfazem. Na hora um grande prazer e na volta pra casa, a melancolia toma conta.

Ao ser interrogada sobre o merecimento de traição de Saulo a atriz brasileira refere que, “merecer é vício da igreja católica apostólica, que fala de merecimentos, culpas e penas”. No entanto Stela é a única pessoa que Saulo escuta e tem na vida. Sucumbiria sem ela, ainda que nem a olhe? Bom, ainda teremos tempo para mais hipóteses! Mas se lembrarmos que os personagens de José Mayer, tinham o mesmo tipo de comportamento....

O que há no interior destas reflexões é a invenção, através da História, das normas do que é a verdade e o falso sobre nós. Não é nos indagarmos se Severine, a burguesa que se prostitui, vivida por Catherine Deneuve, ou a Stela, protagonizada por Maitê Proença, são ninfomaníacas, anormais, compulsivas, desregradas, desviantes ou qualquer outra denominação preconceituosa que emita, um valor sobre a conduta dela.

É refletirmos em que condições histórico-sociais é possível reconhecê-la como determinado sujeito de uma certa sexualidade, no caso desviante não enquanto pré-concepção de um comportamento pessoal, mas desviante, sim, da norma burguesa e, portanto, de uma certa concepção histórica de nós mesmos?

E, ainda, questionarmos como nos reconhecemos a nós mesmos como sujeitos de uma determinada verdade, seja ela sexual, comportamental, ética, estética, artística, profissional, relacional, etc.? E qual a formação dos procedimentos histórico-culturais pelos quais somos levados a nos observarmos, a nos analisarmos, a nos deciframos como ajustados, disciplinados, perversos, normais, anormais, pecaminosos, salvos, abençoados, excluídos, marginalizados, adequados, etc?

Isto porque, ao pensarmos, sentirmos, desejarmos, já estamos enredados a contextos culturais e, ao mesmo tempo, resistindo às suas influências, sejam eles a família, os amigos, a cidade, o país, dentre outros.

Assim, tal qual Severine ou Stela, vivemos o devir da renovação de nossos horizontes pessoais, repletos de história, no qual nos lançamos, corporal e psiquicamente, através da oscilação, criativa e angustiante, de experimentarmos - às vezes, mais rasteiramente, às vezes, mais elevadamente - a carruagem ou o carro da moda da nossa própria caminhada.

Referências Bibliográficas

Dossiê Foucault – Revista Aulas e Folha de São Paulo on line.

quarta-feira, 9 de junho de 2010

Laços

Nunca tinha reparado como é curioso um laço...

Um fita dando voltas que se enrosca...
Mas não se embola.
Vira, revira, circula e pronto:
Está dado o laço.

Assim como um abraço:
Coração com coração.

Tudo isso cercado de muito braço.

É assim que é o laço:
Um abraço no presente...
No cabelo...
No vestido...
Em qualquer coisa que faço.

E quando puxo uma ponta,
O que é que acontece?

Vai escorregando... devagarzinho... Desmancha... desfaz o abraço.

Solta o presente, o cabelo...
E na fita que curioso,
Não faltou nenhum pedaço.

Ah! Então é assim o amor, a amizade.
Tudo o que é sentimento?
Como um pedaço de fita?

Enrosca, segura um pouquinho,
Mas pode desfazer a qualquer hora, Deixando livre as duas pontas do laço.

Por isso é que se diz:
Laço afetivo, laço de amizade...

E quando alguém briga, então se diz: Romperam-se os laços...

Assim é o amor...
Não prende, não escraviza,
Não aperta, não sufoca.
Porque quando vira nó,
Já deixou de ser laço.

(Autoria:Maria Beatriz
Marinho dos Anjos )

Que lindo esse poema! Sugestão da querida Sabrina! Parte dos meus laços!



NINE E PASSIONE, SOB O SOL DE TOSCANA
Contando histórias e quebrando alguns silêncios

Se não bastassem os lindos cenários da Itália, nas três produções. As paixões e desilusões, escolhas e desejos atravessam as histórias de várias mulheres, protagonistas e coadjuvantes das tramas.
Nine, os especialistas em cinema o criticam, pela tentativa, dizem fracassada, de uma refilmagem de um clássico de Fellini. Neste musical, dramático, um cineasta em crise, recria através de sua vida, um novo filme de sucesso. O que deslumbra, são as mulheres da trama. As mulheres que de uma forma ou de outra, fizeram parte da vida dele. E a forma como cada uma foi sentida por ele. Algumas com uma dose maior ou menor de machismo, no entanto, histórias intensas, em torno de um homem. Mãe, amante, esposa, prostituta, diva, assistente, fã, o servindo!
Passione? Citaria ao menos duas mulheres que iniciam a trama sofrendo por silêncios guardados e quebrados. A mãe, que teve seu filho levado para longe, pois o marido não suportou criar o filho de outro homem e a irmã, na Itália, que vê o protagonista sofrendo pelos anos silenciados.
Claro que isso me levou, num associar de pensamentos ao filme Sob o Sol de Toscana, onde a escritora, só consegue voltar a escrever depois de vários anos vivendo silenciosamente, longe de seu país, distante de suas decepções amorosas, no calor e aconchego de estrangeiros que a escutam e assim ajudam a curar suas cicatrizes.
Com esses estímulos, voltei a pensar no silêncio e no cansaço das lobas.
As primeiras dúvidas surgiram por ocasião de meus 10 anos de idade, enquanto minha mãe assistia a um programa de televisão denominado TV Mulher. Um dos quadros desse programa era apresentado por uma psicóloga especialista em sexologia, que respondia perguntas de mulheres que para lá escreviam. As dúvidas das telespectadoras giravam em torno das angústias domésticas e sexuais e eram respondidas cuidadosamente pela especialista.
Mais tarde, no arder da adolescência e início da vida adulta, ouvi as mesmas queixas das mulheres, “Mamas Italianas” da minha família e pude, finalmente, identificar que a tão falada “idade incômoda”, se relacionava com a proximidade ou chegada do climatério e menopausa. Também era comum ouvir, que só não é pior que ficar “mocinha”.

Mas, como sair dos quarenta, popularmente denominados, a idade da loba? Que idade é essa? Será que existe? Como aceitar as transformações corporais e psíquicas e conquistar uma maturidade tranqüila, com tempo para outras atividades?
Inúmeras são as denominações para a mulher madura que ultrapassa os quarenta anos e de acordo com Estés (2007), esse termo – loba - passou a ser usado em função de uma comparação das mulheres a esses seres, misteriosos e míticos.
De acordo com pesquisas, aos quarenta anos de idade, aproximadamente, a maioria das mulheres têm filhos crescidos, quem sabe casados, talvez netos morando em casa e, provavelmente, pais necessitando de cuidados.
Um pouco mais tarde, com o início do climatério e a aproximação da menopausa, essas mulheres, cumpriram um roteiro e viveram seus personagens com devoção. Encararam o terrorismo da moralidade, acataram as assimetrias de poder relacionadas aos gêneros, e agora, enfrentam a ditadura da estética, com o medo de envelhecer.
A menopausa é considerada como uma fase, uma etapa da vida, um período de transição que constrange, pois seu estado é revelado publicamente. Parece se denunciar na vermelhidão do rosto, no calor insuportável, nos ossos enfraquecidos, nos sintomas depressivos, nas mudanças da libido e no ressecamento das mucosas (MARTIN, 2006). Além das mudanças hormonais, as mulheres maduras têm que lidar com a pressão social para a beleza e a juventude. Entretanto, nessa etapa da vida elas apresentam mais cansaço, esgotamento e algumas, uma tendência ao silêncio. É comum que elas se comparem à terra, que outrora fecunda, secou e, se identifiquem com mercadorias cujo prazo de validade venceu.
Para Bauman (2007), essa é a lógica líquida na qual nos livramos das coisas que ultrapassaram a data de seu vencimento, coisas que não produzem mais. Nada pode permanecer muito tempo ou se tornar consistente, pois a busca pelo novo é a ordem do mercado, cuja conseqüência mais perversa é tratar aos seres humanos também como excesso, como lixo desprezado.
As mulheres que se identificam com esse modelo são as que se tornam mais silenciosas, aprisionadas, submetidas e adeptas a uma disciplinarização do corpo pela medicina. “Nada que um calmante ou um antidepressivo não resolva”.
Outras mulheres se espelham no mito de Deméter, deusa grega da fertilidade, representada sempre por uma mulher madura e séria, que busca desesperadamente resgatar sua jovem filha Perséfone, sequestrada por seu tio Hades e levada para longe (DEBBIO, 2008).
Podemos refletir sobre esta metáfora, pois vemos a procura incessante por tratamentos, medicamentos e procedimentos rejuvenescedores e a imposição do culto ao corpo para manter uma aparência jovem, pela cultura contemporânea.

sexta-feira, 4 de junho de 2010



SAÚDE DA MULHER - INTEGRALMENTE
Contribuindo para quebrar silêncios


Ao ver na locadora o filme O Diário Proibido, baseado na obra de Valérie Tasso, escritora da biografia Diario de una ninfómana, ocorreu-me que ao olhar simplesmente para o título e o cartaz, ele poderia facilmente passar por um filme pornô na prateleira errada. Mero apelo visual da indústria da imagem.
No entanto este título despertou-me curiosidade. Pois ainda temos no CID (Código Internacional de Doenças) a NINFOMANIA como “um transtorno psiquiátrico sem razões biológicas que expliquem a sua origem”. E infelizmente, ainda vivemos numa sociedade machista, preconceituosa e cheia de tabus. Claro, muitos avanços, mas ainda não suficientes.
Numa das cenas do filme, a avó da protagonista fala para a neta, sobre essa desigualdade, “na qual um homem que transa com todas as mulheres é um orgulhoso ‘garanhão’, ao tempo em que se uma mulher tem relações com diversos homens é tida como uma ‘vagabunda’, como se fosse obrigada a ser uma eterna submissa”. E além disso, a aconselha a escrever sobre suas angustias, caso não consiga falar sobre.
Há algum tempo pesquiso e escrevo sobre a SAÚDE DA MULHER, especificamente na MATURIDADE e os seus silêncios, e concordo com Montgomery, médico ginecologista, que muitas vezes suas dores são investigadas por meio de exames, quando o diagnóstico poderia ser encontrado nos olhos desta mulher. Escutando alguns minutos a mais.
Em vista da manutenção do papel de cuidadora, a mulher termina deixando seus interesses sempre em segundo plano. Se, por ventura se arrisca a buscar autonomia, a realizar seus desejos, é compelida a seguir se responsabilizando por todas as questões domésticas. É acionada a culpar-se pelas questões escolares dos filhos, pela camisa manchada do marido, ainda que, em alguns momentos, sua presença nem seja percebida no contexto familiar. Um bom modelo desse estereótipo de gênero pode ser visto no filme italiano Pão e Tulipas, de Silvio Soldine (2000).
O motivo das mulheres buscarem incessantemente por medicação e consultas médicas, poderia ser um alívio para outras dores, dificuldades pessoais e familiares, e, não encontrando esse espaço, acabam retornando inúmeras vezes ao sistema de saúde, congestionando-o e, ao mesmo tempo, intensificando suas queixas.
De acordo com Werba (NO PRELO): “Há um longo histórico sobre os movimentos, derrotas e conquistas das mulheres na área da saúde, mas, evidentemente, é o movimento feminista em seu conjunto, o maior responsável pelos avanços neste setor”.
De acordo com Pegoraro e Caldana, (2008) estas mulheres foram silenciadas e passivisadas ao longo da história. Entretanto, elas sempre têm desejos e se culpam por quererem além do que os serviços de saúde oferecem.
É importante ressaltar que essa dominação não foi exercida de modo suave, sem resistência. As mulheres sempre lutaram por autonomia e cidadania, enfrentando todas as formas de violência e discriminação. E como vemos, na área da saúde, não foi diferente.
Mulheres na menopausa, na maturidade, mulheres, que sofrem, que riem, que sentem desejos e dores, contando histórias que só se pode resgatar apurando o ouvido e escutando os sussurros.
Lobas cansadas e silenciadas pela história, buscando espaços de fala. Deméteres apressadas, pois iniciaram escondendo os “paninhos” da menstruação para não incomodarem aos homens da família. Hoje, elas têm urgência em cuidar da própria saúde, seguir prescrições, tentando eliminar o sofrimento, abrandar os calorões, aumentar o desejo sexual e solucionar o “algo” errado, que acontece com elas neste período.
Apressam-se, para deste modo, poderem voltar plenamente às suas atividades cotidianas. Buscam silenciosas, alívios químicos para seu sofrimento, procurando algo que esconda, ou iniba suas dores, aceitando assim, engolir o que poderia ser verbalizado.

quinta-feira, 3 de junho de 2010

SAÚDE MENTAL

“...estou no norte do estado, um lugar lindo, cheio de subidas e descidas, para ter uma ideia o lugar mais baixo da cidade fica 300 metros nível do mar e o pico mais alto 900 metros nível do mar, em Itatiba do Sul, no hospital municipal...”

Esse scrap, recado, na minha página do orkut, deixado por um amigo querido, que conseguiu um trabalho de psicólogo neste local, disparou em mim, algumas associações, relacionadas ao tema, “Saúde Mental”.

Lembrei-me de Patch Adams, O Amor é Contagioso (alguém já viu o filme)? Ele, ainda hoje, contagia genuinamente. Mesmo que busquemos a verdadeira história deste médico, e a mesma, não seja tão romanceadamente engraçada como no filme. Ela afeta! Faz-nos pensar no quanto este sistema massacra os doutores da saúde e junto com eles, os que aguardam, nos corredores e salas de espera, por algo mais que um anti-inflamatório, um CID (Código Internacional de Doenças), ou o antidepressivo do momento.

Pensei na proposta do Ministério da Saúde, HUMANIZA SUS. Que é ótima, pois prevê a INTEGRALIDADE da saúde do ser humano. Mas, essa é uma história loooonga!

Lembrei também de um livro que cheia de arrogância de recém formada, olhei com desdém, “Xiiii, é auto-ajuda” O Futuro da Humanidade de Augusto Cury e costurei tudo isso aos retalhos de minha trajetória de acadêmica e recém formada.

Neste juntar de retalhos em minha mente, foram surgindo os locais em que realizei meus trabalhos, buscando novas possibilidades de atenção aos que sofriam com diversas questões.

A escuta de um limpar de feridas do coração e da alma. O acreditar e acolher demandas individuais que aos poucos se mostravam coletivas e vice-versa. Histórias que desacomodavam, que faziam com que o conforto da poltrona do domingo fosse substituído por uma inquietação gigantesca. Foram momentos de “atravessar desertos com areia nos olhos”.

No entanto, alguns profissionais da saúde me fizeram acreditar que o amor e a paixão pelo outro, ainda prevalece nas suas ações. Ensinaram-me a relevância da atuação interdisciplinar. Que a saúde não pode ser entendida e praticada com um conjunto de ações e saberes isolados. E que, portanto, era necessário produzir ações comuns, sem o predomínio de uma profissão ou campo como detentora das diretrizes do trabalho generalista.

Penso que entendi que somente a partir desta ética dos “afetos”, será possível pensar-se a saúde mental. Somente participando com implicação e envolvimento, para que os grupos se desenvolvam e se tornem conscientes e aptos a exercer atividades cooperativas e organizadas, buscando a emancipação humana.

Muitos foram os que passaram e irão passar por minha história profissional. Muitos permitiram minha aprendizagem. Alguns, no entanto, contribuíram para que eu entendesse que também se faz psicologia em micropolíticas, nas intervenções cotidianas. Estes ampliaram o exercício de minha in-conformação com as práticas que despotencializam e silenciam a vida.

Esses sim, proporcionaram os bons encontros. E para estes uma homenagem de um texto, que como diz o poema de Milton Nascimento: “Certas canções que ouço cabem tão dentro de mim, que perguntar carece como não fui eu que fui eu que fiz”?

“Estar por perto quando as crises acontecem, sentir junto a angústia de vozes que insistem em dizer algo, perceber o corpo que poucos percebem, negociar em cima do telhado, temer os medos comuns de quem, por sorte, sempre se faz diferente.

Combinar combinados sempre a recombinar. Compartilhar a criação de um mundo em que caibam pessoas, pessoas como nós...Experimentar adoecer e, de cuidador, passar a ser cuidado.

Reconhecer o não ter respostas e tentar construí-la junto ao outro – tão igual...

Conhecer novos valores, se permitir chorar, assumir o risco de confiar nos vínculos.

Se assustar com o tamanho da dor e mesmo assim, por força maior, querer estar por perto.

Conhecer de perto demais a impotência frente a morte e a força poderosa da sobrevivência.

Fazer amigos e parceiros, se permitir questionar a si próprio, aprender que pouco se sabe – e o quanto há pra se aprender, criar expectativas – ora pequenas, ora grandes demais!

E ter de mudá-las, reconstruí-las, resgatá-las e conviver num mesmo espaço (que sempre será pequeno para tanto) com famílias, usuários, equipe, outras equipes: pacientes e impacientes...” (SURJUS, 2007, p.

10).