Entre Laços - Espaço terapêutico

segunda-feira, 15 de novembro de 2010

O MEU, O SEU, O NOSSO QUERIDO DIÁRIO! Ou uma maneira de sair do limbo?

           Inúmeras vezes durante um percurso, de vida, acadêmico ou profissional. De cartas ao primeiro amor à teses,  recorremos as palavras dos que foram importantes em nossa trajetória. De grandes nomes da literatura aos mestres que possuem o dom de deixar escrito o que necessitamos ler.
Alguém escreveu antes que eu pudesse pensar que: “Só conseguimos deitar no papel, os nossos sentimentos, a nossa vida. Arte é sangue, é carne. (...) só podemos expor o que somos. Ai que mora o perigo: EXPOR O QUE SOMOS?
 Lispector utiliza o termo Dura Escritura em Água Viva ao expressar o fatigante exercício de escrever “...antes de mais nada te escrevo dura escritura, quero como poder pegar com a mão a palavra”. Outro poeta, inglês, disse: “Que notícias sensacionais podemos obter dos poemas? No entanto, pessoas perecem a cada dia, por falta do que ali se encontra”.
Na busca de criar novos mundos ou novas formas de sentir, utilizamos criativamente a letra para dar conta do silêncio das coisas. Conseguindo significar com palavras o que não é palavra. Como escreve Cargnin no livro A Instabilidade do dragão (relatos de uma bipolar). “Agradeço por um simples caderno e uma caneta terem a capacidade de me acalmar e desabafar ao mundo, sem medo do julgamento o qual, muitas vezes, dá início à incredibilidade”.
A experiência da escrita e da literatura poderá constituir uma experiência que, ilusória ou não, aparece como um meio de descoberta e de um esforço, não para expressar somente o que sabemos, mas para sentir o que não sabemos.
Sobre esse não saber, ou mesmo, sobre esse expor-se na escrita Martendal me auxiliou ao me fazer ver, que tentar sair do limbo seria trocar a prótese por uma autenticidade até então desconhecida, que exporia as facetas não tão apreciadas pela perseverante sociedade. O sujeito como uma floresta...com regiões ensolaradas e secas, mas também úmidas e escuras.
Seria como...tirar tudo a limpo, desprezar a máscara, assumir o desejo, refutar sentidos oferecidos por terceiros que acabam deixando o dia menos nublado em nome de uma certa satisfação momentânea.
“Sair do limbo exige a ruptura de uma inércia, remar contra a correnteza e atravessar um deserto que sopra areia nos olhos. Pura violência, puro desconforto, pura reinvenção.”
É na escrita que esse aniquilamento nutrido pelo limbo do cotidiano ganha chance de mudar de cor, de se desfazer e de transformar a impessoalidade em singularidade.
Agradeço aos que tem esse dom de colocar no papel todo o seu pathos, e aí a tradução fica por conta da vontade, paixão ou patologia, como quiserem.
Agradeço aos que se arriscam na empreitada de dar forma escrita ao que não tem forma. O divino mora nessa coragem!

Nenhum comentário:

Postar um comentário